Não esqueçais as marinhas creaturas

Wednesday, April 09, 2008

2012

Entretanto os estudantes de engenharia aconselhavam-me a subir para o poste mais alto que encontrasse e aí ficasse o resto da vida, imitando um estilita. Agradeci-lhes profundamente e em troca ofereci-me para os ajudar caso precisassem, um dia, de lutar pacificamente pela independência de alguma coisa. Antes de me conseguir despedir, porém, um homem rugoso e despenteado arrastou-me para um canto sombrio. Tinha pavor nos olhos e carregava uma pá e um grande saco cheio de garrafas de água, pacotes de bolacha e latas de conserva.

- Eu ouvi, eu ouvi! O senhor disse que respirava a paz dos desertos! Por isso também sabe. Sabe, não é verdade? Talvez não saiba, talvez tenha apenas visões ou pressentimentos informes. Mas a julgar pelas suas roupas é humilde, e como tal tem o direito de saber a verdade.

Não precisei de responder. Os meus olhos devem ter brilhado mais do que qualquer "sim", tal era a minha alegria por conhecer um homem que possuía a verdade e estava disposto a partilhá-la com os simples. Sempre receoso, à procura de qualquer coisa nas próprias sombras, aproximou-se e pronunciou um número:

- 2012.

2012. A data do fim do mundo.

- A 21 do 12 de 2012 o mundo, para os humanos, vai acabar. Já não restam dúvidas. Não é preciso abrir muito os olhos para se ver os sinais. Seremos todos extintos, se não por nós próprios, pelo cruel destino da natureza. Porque é que está a sorrir? Acha que estou a mentir?

- Jamais, senhor. Estou apenas feliz por saber a verdade. Porque, seja ela qual for, sabê-la é motivo para uma alegria infinita.

- Escute bem. E passe a palavra. Primeiro, o calendário Maia. Na verdade, um conjunto de calendários que durante séculos nunca falharam, e ainda são usados. O calendário Maia termina a 21 do 12 de 2012. Estou a ver o que me dirá... "seu incauto, é apenas um calendário. Também para os Maias o 400 era o número limite, uma espécie de infinito, o que é um absurdo", é o que me dirá. E realmente não basta para nos assustarmos! Mas e se outros povos, livros e profetas apontarem para semelhante data? O calendário hindu Kali Yuga começa em 18 de Fevereiro de 3102 a.c., apenas 12 anos antes do quinto grande ciclo Maia. Fazendo as contas, a Era Dourada de Krishna poderá começar em 2012, seja lá o que isso for.

Reflecti um pouco nestas palavras. Realmente, lembrei-me eu, no Brahma-Vaivarta Purana Krishna, encarnação de Vishnu, diz a Ganga Devi que uma Era Dourada virá quando passarem 5000 anos de Kali Yuga, uma era maravilhosa que durará 10000 anos. Segundo me lembrava, Kali Yuga começara por volta de 3100 antes de cristo. Somando 5000 dava 2100, mais ou menos, e não havia assim muita diferença entre 2012 e 2100.

- Depois, seguindo a precessão dos equinócios, a Era de Peixes vai terminar mais ou menos por esta altura e iniciar-se a Era de Aquário. Sabe o que acontece nas mudanças de era: dilúvios, guerras, fome, catástrofes horríveis. Quer mais?

Acenei com a cabeça. Estava muito interessado.

- Há estudos que indicam que as reservas de petróleo acabam em 2012. Só isso chegaria para uma grande mudança, porque quase tudo é movido a petróleo. Mas está também prevista, para 2012, uma enorme tempestade solar que vai destruir por completo as estruturas eléctricas. Imagine o mundo moderno sem electricidade e sem petróleo, meu caro! A palavra "moderno" passará a ter um significado sinistro, não concorda?

- Perfeitamente, caro senhor!

- O campo magnético da Terra está a ficar cada vez mais fraco, o que adivinha para breve uma inversão dos polos magnéticos. As bússolas apontarão para sul e os satélites de navegação e comunicação ficarão inoperacionais. Sem este campo para nos proteger da radiação solar a atmosfera vai arder. Juntando este facto às profecias, 2012 será o ano mais provável para isso.

- Sim senhor.

- Isto não acaba aqui. Veja as notícias. A economia americana, a maior do mundo, está a estagnar e países como o Irão, aplaudidos pela simpatia cega dos anti-americanos, estão prestes a conseguir armamento nuclear. A água potável é cada vez mais escassa, prevendo-se para breve várias guerras por esse bem essencial. Que futuro tem a humanidade sem água para beber? E o aquecimento global é já um facto - os polos estão a derreter, a corrente do Golfo pode parar e dar início a uma nova era glaciar, que pode ser em 2012.

De seguida o senhor, já cansado, fez uma pausa enquanto me fitava com toda a atenção. Eu sorria-lhe com uma incontida satisfação pelo que me acabava de dizer.

- Porque é que continua a sorrir? Disse alguma piada? Estou a mostrar-lhe que este mundo vai acabar, e que vamos sofrer provações terríveis até lá! Não acredita? O que é que quer mais? Nostradamus, Joaquim de Fiore, a Bíblia?

- Caro senhor, eu não tenho razão nenhuma para não acreditar, e menos razão ainda para deixar de ser feliz. Pois toda a existência é um teste, uma provação, uma sequência de provas para evoluir e ser cada vez mais feliz, e está-me a dizer que, no nosso tempo de vida, vamos ter a maior de todas. Imagine o salto evolucional que podemos dar graças a esta oportunidade.

- Amigo, você é doido. Como é que alguém normal pode ser feliz sabendo que vai morrer amanhã, e que consigo será enterrada toda a humanidade e todas as maravilhas que ela conseguiu em milhares de anos de evolução? É assim mesmo. Aquilo a que chama evoluir é na realidade uma regressão abrupta ao ponto zero.

- Mas senhor, a evolução é dentro de nós todos, e nós todos somos muito mais do que este frágil plano a que vulgarmente chamam mundo. A matéria sofre acidentes, mas um espírito bem dirigido torna-se impenetrável - avança pelo meio das intempéries como o salmão sobe o rio. Depois de deixar este corpo serei menos ignorante e verei mais longe. E o senhor também, porque é uma pessoa boa, que procura o conhecimento e se preocupa com os outros.

Fez uma nova pausa. Com ar abalado vi-o remexer o saco e tirar duas embalagens. Segurou uma em cada mão, viradas para mim.

- Mas não quer ao menos uma t-shirt?

As t-shirts eram muito bonitas e diziam "Apocalipse 2012". Assim que respondi que não tinha dinheiro o senhor desapareceu nas sombras tão rapidamente como tinha aparecido, sem descanso na sua missão de avisar os outros.

Fui a última pessoa a sair da feira, tão interessado fiquei em todas as coisas. Gostava de saber mais sobre Tarot, pedrinhas da sorte, Feng Shui e outras maravilhas, mas não pedi nada a ninguém, nem mesmo um livro (que decerto me tinham oferecido de boa vontade), porque o conhecimento sem as pessoas não ilumina tanto, e assim, quando é possível, prefiro obtê-lo através do diálogo e da experiência. Guardarei na minha memória este evento para poder voltar nos próximos quatro anos.

Friday, March 14, 2008

A Feira Esotérica

Vagueava em Monsanto quando, talvez por simpatia do destino, apressei o passo e vi-me subitamente em Oeiras, junto ao portão da "Feira Esotérica". O segurança, muito prestável, deixou-me entrar sem pagar bilhete desejando-me "boa sorte para o negócio". Negócio, entendi, com a Verdade, pois temos de dar muito de nós para obter em troca um vislumbre da Verdade. Sorri-lhe e entrei.

O espaço estava cheio de pessoas, as barracas apinhadas de interesse pela espiritualidade e ninguém parecia troçar do meu dhoti. A minha felicidade era difícil de conter. Valera duplamente a pena, dizia para mim próprio, ter vagueado tanto, ter passado tanto frio, fome e humilhação. Pelo meu progresso, porque só se progride pela provação e o sacrifício, e pela minha felicidade, porque tinha chegado ao sítio onde o avanço espiritual era procurado freneticamente por todos os que lá estavam. Os Vedas não aconselham o frenesim como um bom método, bem sei, mas era preciso ver além dos Vedas. O que me interessava era o que animava e unia, no fundo, aquelas pessoas de diferentes crenças, e que era o progresso espiritual. Para se ser um bom mestre é preciso, primeiro, ser um bom aluno, e o bom aluno é o que tem capacidades, sim, mas também o ânimo para as dirigir na boa direcção! Por isso, pensei, com tanto ânimo talvez a Feira Esotérica de Oeiras fosse a semente de uma nova humanidade, com tanto amor a unir os Homens como o que une as estrelas e os planetas e tudo o resto no universo, e sorri para todos.

O meu desejo era observar todas as barracas com detalhe e aprender o mais possível. A que estava logo ao pé de mim era uma que dizia "fotografe a sua aura". Excitado, cheguei ao pé do dono da barraca e disse que queria experimentar essa maravilha e compreender o que era a aura. Ele respondeu-me que eram quinze euros. "Nunca tenho dinheiro", retorqui. Ele deve ter sentido muita pena, porque nunca mais olhou para mim.

Por sorte, a meu lado, um pouco enfastiados, dois estudantes de engenharia, objectivos e quase tão humildemente vestidos como eu, falavam sobre campos eléctricos de alta voltagem. Esfomeado de conhecimento, apresentei-me e perguntei-lhes como funcionava a maravilha que captava a aura. Responderam-me, alegres pela pergunta, que "eram apenas fotografias do tipo Kirlian, um electricista russo que inventou um método para registar a aura, a cores, com uma corrente eléctrica de alta frequência, baixa amperagem e alta voltagem, que basicamente ionizava os gases, por exemplo a humidade, em torno de um objecto", e que "era tudo uma fraude, porque no vácuo a aura aparecia tanto como o 5 no sistema binário", e ainda que "as fotografias também mostravam auras em seres inanimados, na Wikipedia até estava a fotografia da aura de uma moeda; e que, se pudessem, a encontravam facilmente e aos arco-íris na lingerie na Soraia Chaves". Ainda não sei quem é essa Soraia Chaves, mas é possível que seja uma mentora espiritual para os engenheiros.

O homem da barraca, atento ao nosso diálogo, interrompeu-nos em defesa da sua ciência. Parecia indignado. Disse muitas coisas seguidas e rápidas, das quais só me lembro de poucas. Falou de electrobiografia, beogramas, florais de Bach, curas baseadas nas auras desses florais e das pessoas, e energia universal do bem, acrescentando diversas vezes a expressão "meus ignorantes da merda" ao início ou ao fim das suas frases. Os estudantes envolveram-se na discussão ainda mais animados do que antes, desenvolvendo temas como fraude, estupidez e campos de alta voltagem no interior do orifício rectal, entre algum vernáculo popular, pois todos eram pessoas simples do povo. "Como é bela a paixão destes jovens pela justiça", reflectia eu entre eles, "e como brilha a esperança daquele homem na sua ciência!". Depois fui empurrado pela multidão que se amontoava ali para ver a disputa, todos interessados em colher argumentos como as abelhas colhem o mel - argumentos como degraus da escada da Verdade, para a sua edificação pessoal e de todos os outros.

Levantei-me junto à barraca da ovnilogia. A conversa anterior fora como uma meditação, enchera-me de paz e vontade de observar. Por isso observei longamente os livros desta barraca. Os que tinham pequenos homens esqueléticos com grandes cabeças fizeram reflorescer em mim belas sensações da minha infância na Índia. E por isso pensei alto: será possível algum ser evoluído emanar algo diferente do amor universal? Tão alto que o senhor da barraca me ouviu e fez questão de me corrigir. Segundo ele, muitas histórias apontavam para uma malvadez fria e científica daquelas criaturas, que raptavam seres humanos para experimentação laboratorial, como faziam os japoneses e os nazis na Segunda Guerra. Notei que quanto mais falava mais assustado ele ia ficando, pois acreditava em tudo o que dizia. Aprendi muito sobre extraterrestres, sobre como construiram a Atlântida, Stonehenge, as cabeças da Ilha da Páscoa e as pirâmides egípcias e maias; aprendi (num discurso apenas sussurrado, para ninguém desconfiar) sobre como estavam infiltrados na nossa sociedade, encobrindo a sua aparência de esqueletos cabeçudos e lagartos gigantes com pele humana; e aprendi sobre as tentativas de governos poderosos para encobrir estas revelações, e sobre o plano de dominarem finalmente o planeta em 2012. Tudo isto em apenas meia hora.

Terminado o seu discurso, o simpático senhor suava e olhava em volta desconfiado.
- Sabe, hoje em dia a tecnologia rouba-nos a privacidade... O avanço tecnológico, de onde pensa que vem? É mais um truque deles para nos vigiar e controlar. Enquanto milhões se sentam em frente às televisões e aos computadores, perdendo capacidades físicas e mentais, adormecendo numa frágil letargia, eles infiltram-se nos exércitos e nos governos - como os judeus, a Maçonaria, os comunistas! Depois de tantos raptos e estudos ficaram a saber como é que se domina um ser humano e todas as fragilidades das nossas sociedades! Aproveite agora para ler e ficar alerta, porque depois da guerra seremos todos escravizados. A África das Descobertas extender-se-á, no século XXI, ao planeta inteiro! Mais tarde, se existir literatura em Orion, a maior obra deles será uma espécie de Lusíadas de outro mundo: um grande poema épico sobre a descoberta da Terra, a sua colonização e todas as desgraças que lançaram sobre nós!

Sorri.

- Tenha calma, senhor - disse-lhe - porque não há nada a temer. Nenhuma criatura do espaço pode vencer o amor universal que guardamos no peito. Nem os ingleses o conseguiram, senhor. O amor é invencível, não se pode escravizar quem ama. O amor liga-nos a todas as coisas. O homem que ama, senhor, guarda todo o universo, que é infinito. Nem o ser mais poderoso pode trancar o universo numa cela.

Vi o senhor ficar perplexo e confuso com o meu discurso. Não percebia o que eu queria dizer, mas dava-me o benefício da dúvida, talvez por estar muito assustado e ver em mim uma possível ajuda.

- Não me enerve! O que é que está a dizer? Imagine que tem diante de si um exército de extraterrestres fortemente armado, e você, e os seus amigos, e a sua família, não têm protecção. Para piorar a situação, imagine que alguns dos seus amigos e familiares se revelam, de repente, extraterrestres disfarçados e o atacam de surpresa. O que é que faz nessa situação, diga-me? Porque é disso que estamos a falar, é esta a realidade!

- Senhor, já estive em situações piores, e o que faço sempre é meditar. Ao meditar transformo-me no planeta em que estamos, que está vivo e tem sentidos ampliados. Ponho, como se põe um manto, às costas o oceano azul raiado de Sol e danço como as marés. A minha vontade cresce e desacelera, torna-se como as nuvens, colossal, lenta e majestosa na direcção da brisa; o meu peito enche-se do magma que há no centro da Terra, com um calor que chegaria para amar todos os homens deste e doutros mundos em várias vidas. Nada disto é extraordinário: sou apenas eu a voltar a mim próprio, àquilo que deveras sou. E por nada ser extraordinário passo a respirar a paz dos desertos.

Atrás de mim ouvi uma voz:

- Há algum médico nesta feira? Parece que está aqui alguém a ter um ataque de paganismo!

Eram os estudantes de engenharia outra vez. Fiquei feliz ao vê-los. Mas contarei o que aconteceu noutra altura, porque chegou a hora de cantar os mantras a Indra e Agni.