
Unindo o meu talento para manipulação de energias ao profundo vazio mental do nirvana, sinto-me ilimitado.
Os meus progressos são notáveis, tão completos que já comecei a escrever alguns livros. Terei de adoptar rapidamente um discípulo para que possa fazer a revisão do texto e uma ou outra emenda, dado que, como já aqui escrevi (julgo eu), o meu caminho espiritual não me permite ler livros - nem mesmo os que eu próprio escrevo.
Por vezes leio algumas palavras sem querer e tenho de me purificar a seguir, mortificando-me com mais algumas horas de fome. Mas o assunto desta missiva é superior a estes detalhes da minha nova existência.
Atentai bem na foto que apresento. O que é que mais se destaca? As nuvens e eu, é certo, e uma árvore lá ao fundo, mas atentai melhor, de mais perto. O que é realmente importante nesta imagem? Também eu tive de circular um pouco pelo Largo Camões para achar o mais elevado tesouro da cidade. São precisamente os pombos.
Desde tempos imemoriais os mais esclarecidos dos homens usam as aves para adivinhação. Homero, por exemplo, 27 séculos antes de mim descreveu como os gregos as usavam: observando o seu vôo, se era à direita ou à esquerda de um exército, decidiam se a sorte era ou não favorável.
Homero, descobri no Largo Camões, estava errado. Um turista inglês tirou-me esta foto nesse preciso momento e por delicadeza enviou-ma depois, por email, devidamente assinada. Tinha um nome invulgar, "Fucking Communist!". Se o Sr. Communist! visitar este blog, aqui lhe deixo os meus mais sinceros agradecimentos.
Ora bem, o que descobri foi muito simples: não é o vôo das aves a mensagem, e sim os excrementos. Atentando na forma, na textura, na cor e no sabor de uma poia de pombo pode-se com algum esforço ler o futuro. Os pombos são, qual Hermes, mensageiros alados, e as suas bostas mensagens do céu. Estão espalhadas por toda a parte, como se alguém rasgasse uma enciclopédia universal do futuro e atirasse os bocadinhos do cimo do Sheraton num dia de vento, mas são mensagens codificadas para só os eleitos terem acesso ao conteúdo.
A beleza desta descoberta emocionou-me tanto que me sentei imóvel durante cinco horas. Estou indeciso entre Borromância e Merdomância para nome desta nova ciência. Noto, ao escrever isto, um espasmo dos meus lábios a querer sorrir... É que eu não preciso ficar indeciso, posso provar já nas bostas a minha decisão, no futuro.
Esfregando-me nas paredes e no chão trouxe tantas quanto consegui para casa, coladas ao meu dhoti, e estou agora a decifrá-las uma por uma, analisando com a maior concentração. Até agora só apanhei mensagens inúteis, com números de lotaria e euromilhões, resultados da bolsa e o regresso de um tal D. Sebastião. Tenho agora de parar de escrever para analisar as restantes, enquanto o meu dhoti não fica completamente corroído pelo ácido.
Shanti para todos,
Jaime Mohandas Karamchand Pacheco Ghandi



