Não esqueçais as marinhas creaturas

Monday, July 31, 2006


Unindo o meu talento para manipulação de energias ao profundo vazio mental do nirvana, sinto-me ilimitado.

Os meus progressos são notáveis, tão completos que já comecei a escrever alguns livros. Terei de adoptar rapidamente um discípulo para que possa fazer a revisão do texto e uma ou outra emenda, dado que, como já aqui escrevi (julgo eu), o meu caminho espiritual não me permite ler livros - nem mesmo os que eu próprio escrevo.

Por vezes leio algumas palavras sem querer e tenho de me purificar a seguir, mortificando-me com mais algumas horas de fome. Mas o assunto desta missiva é superior a estes detalhes da minha nova existência.

Atentai bem na foto que apresento. O que é que mais se destaca? As nuvens e eu, é certo, e uma árvore lá ao fundo, mas atentai melhor, de mais perto. O que é realmente importante nesta imagem? Também eu tive de circular um pouco pelo Largo Camões para achar o mais elevado tesouro da cidade. São precisamente os pombos.

Desde tempos imemoriais os mais esclarecidos dos homens usam as aves para adivinhação. Homero, por exemplo, 27 séculos antes de mim descreveu como os gregos as usavam: observando o seu vôo, se era à direita ou à esquerda de um exército, decidiam se a sorte era ou não favorável.

Homero, descobri no Largo Camões, estava errado. Um turista inglês tirou-me esta foto nesse preciso momento e por delicadeza enviou-ma depois, por email, devidamente assinada. Tinha um nome invulgar, "Fucking Communist!". Se o Sr. Communist! visitar este blog, aqui lhe deixo os meus mais sinceros agradecimentos.

Ora bem, o que descobri foi muito simples: não é o vôo das aves a mensagem, e sim os excrementos. Atentando na forma, na textura, na cor e no sabor de uma poia de pombo pode-se com algum esforço ler o futuro. Os pombos são, qual Hermes, mensageiros alados, e as suas bostas mensagens do céu. Estão espalhadas por toda a parte, como se alguém rasgasse uma enciclopédia universal do futuro e atirasse os bocadinhos do cimo do Sheraton num dia de vento, mas são mensagens codificadas para só os eleitos terem acesso ao conteúdo.

A beleza desta descoberta emocionou-me tanto que me sentei imóvel durante cinco horas. Estou indeciso entre Borromância e Merdomância para nome desta nova ciência. Noto, ao escrever isto, um espasmo dos meus lábios a querer sorrir... É que eu não preciso ficar indeciso, posso provar já nas bostas a minha decisão, no futuro.

Esfregando-me nas paredes e no chão trouxe tantas quanto consegui para casa, coladas ao meu dhoti, e estou agora a decifrá-las uma por uma, analisando com a maior concentração. Até agora só apanhei mensagens inúteis, com números de lotaria e euromilhões, resultados da bolsa e o regresso de um tal D. Sebastião. Tenho agora de parar de escrever para analisar as restantes, enquanto o meu dhoti não fica completamente corroído pelo ácido.

Shanti para todos,

Jaime Mohandas Karamchand Pacheco Ghandi

Thursday, July 27, 2006

Estou cada vez mais aperfeiçoado na utilização de energias alternativas. Por força mental, consigo forçar as minhas células a absorver a energia solar, como fazem as plantas. Passei toda a manhã ao sol com resultados muito positivos: a fome diminuiu e os excrementos sairam esverdeados. Não creio que seja uma abundância de clorofila nos intestinos por ter ingerido todas as plantas do apartamento, porque as cozinhei antes.

As fontes de informação são quase todas proibidas pelo sagrado brahmacharya. Tenho tido muita dificuldade em fazer progredir a minha sabedoria, mas estou a usar a criatividade. Não posso usar a Internet para além deste fundamental blog, nem a televisão, nem livros ou jornais. Mas os livros sagrados não dizem nada sobre o Trivial Pursuit que achei caído na parte de trás de uma prateleira. Com ele tenho alargado muito a minha sabedoria sobre o mundo vegetal.

O abacate é a fruta mais calórica do planeta, 167 KCal por cada 100g. Nenhuma espécie selvagem produz flores inteiramente negras. As orquídeas têm as sementes mais pequenas do mundo: são necessárias mais de 1.25 milhões de sementes para atingir o peso de um grama. A erva mais alta é o bambu, que pode chegar aos 130 pés de altura. O papel de arroz não é feito de arroz, e sim de umas árvores pequenas que há para os lados da Ilha Formosa. As flores que dependem das traças para a polinização são geralmente brancas ou amarelas, para se verem bem com pouca luz.

Tuesday, July 25, 2006

Hoje, depois das orações da alvorada, encontrei um vizinho meu ao pé dos contentores do lixo. Levava o lixo dele separado em saquinhos coloridos, e atirava-os ao acaso, um após outro, para os contentores coloridos, não acertando sempre as cores. Parecia orgulhoso, apesar de estar a fumar uma coisa malcheirosa. Quando me viu reconheceu-me, talvez por me ter visto ontem a sair do prédio, e apesar do meu aspecto cumprimentou-me:
- Bom dia vizinho! Como está? - disse-me ele sorridente e sempre politicamente correcto. Acenei-lhe e sorri-lhe de volta, com o meu sorriso simpático de Ghandi. A ausência de palavras pareceu perturbá-lo, porque insistiu em "meter conversa". Era um daqueles tipos artificialmente sociáveis, que nunca deixam a popularidade em risco apesar de terem um aspecto cigano:
- Então, também vem por o lixo de manhãzinha? Não há nada melhor do que respirar este ar fresco da manhã, não é verdade?
- Não vim por lixo nenhum, vizinho, vim só buscar o jornal.
Notei pela contorção de alguns músculos da face que estranhou o meu comportamento, mas esforçou-se por continuar a sorrir. Tinha um sorriso treinado.
- Então gosta de se manter actualizado, hã?
- Sempre, mas com a satya, perdão, a verdade, e como a verdade nunca muda eu vivo em paz. O jornal é só para limpar o rabo, porque sem dinheiro não me deixam obter papel higiénico ou guardanapos nas lojas.
O homem riu com força, assumindo que eu estava a brincar, e mudou subtilmente de tema, falando sempre com uma curiosa intimidade.
- Vi o senhor sair dali, onde morava o sr. Pacheco. Não sabia que o sr. Pacheco se tinha mudado. E olhe que eu tenho uma imobiliária! - gritou isto sob uma baforada de fumo, rindo ainda mais alto e dando-me uma palmada amiga nas costas que quase me desmontou os ossos frágeis - se o sr. estiver interessado, tenho casas que não imagina. Aqui, ali, acolá, em todo o lado! Tudo na moda! Azulejos do melhor que há, cortados à máquina, caríssimos! Soalhos de madeira maciça - faia, não carvalho, só do mais caro! Espelhos no hall do prédio nem pensar, não estão na moda!

No fim do discurso já me tratava por tu, como se fosse um amigo de infância, ou um irmão.
- Faço-te um preço especial, porque tu és uma pessoa humilde. Às vezes aparecem-me gajos convencidos, estás a ver, que até dá gosto enganar, mas tu és humilde e eu para ti faço um bom negócio! Vá, pensa lá nisso! Um grande abraço!

Deu-me um cartão e depois afastou-se. Era muito pequeno e duro, com umas arestas perigosas. Preferi o jornal.

Monday, July 24, 2006

Os grandes homens são conjunturais. Dependem do seu tempo e do seu espaço. O que seria de Napoleão sem a Revolução Francesa, de Hitler sem a opressão da Alemanha pelos vencedores da Primeira Guerra e dos progressos da Ariosofia, de Jesus sem a ocupação romana da Judeia e as profecias messiânicas do Velho Testamento? Não teriam chegado mais longe do que um trabalhador dos CTT. Também Ghandi não teria seguidores e um lugar na História se a Índia não precisasse de ser libertada dos ingleses.

Mas Eu-Ghandi, a minha acidental personalidade, não vive num país grande esfomeado de liberdade, e sim num pseudo-país pequeno necessitado de uma ditadura. Que posso fazer eu aqui enquanto Ghandi, para além de deambular pelas ruas e ser tratado como um palhaço? É a velha história da boa semente que se atira ao acaso e que se desenvolve numa árvore imensa, se calhar em terra fértil, ou em nada, se calhar numa pedra. Eu calhei em Portugal, que é um rochedo salgado. Ainda por cima com ar de indiano e sem passaporte, dinheiro ou Visa. A única coisa que restou da metamorfose foi este computador e algumas flores.

Por outro lado, quantas pessoas poderiam passar pela experiência esquizofrénica de ser Ghandi? Sinto a nostalgia de descobrir coisas com pêndulos, mas em simultâneo uma energia nova, uma força que vem de dentro, que me enche as entranhas e está prestes a explodir. Não sei como comendo tão pouco pode um organismo produzir tantos hidrocarbonetos.
Esta é a minha aparência passados três dias, no regresso de ir buscar o jornal ao lixo. Estou mais magro, mais ridículo. Com sono. Apetece-me andar sem rumo sob o calor estival, os meus pés descalços a pisar passeios escaldantes, o estômago a espremer-se em protesto do prolongado jejum.

Sou feliz e vou fazer transbordar essa felicidade para cima dos pobres. Vou ensinar-lhes a arte de ser feliz com nada. Vou ensinar-lhes a beleza e a pureza das plantas, como se arrancam e como se cozinham. Vou fazer um banquete na Avenida da Liberdade.

Vou-me esquecer que li Antístenes e sobre a vida de Diógenes de Sínope, que habitava um barril, Simão estilita, que vivia numa coluna, Jesus Cristo, o profeta, e S. Francisco de Assis, o vagabundo. Sinto-me mais inspirado para pregar a pobreza que todos eles juntos. Sou o mais pobre, o mais fraco e o mais humilde dos homens.

Ainda não passou uma semana e já quase não penso que tinha poderes energéticos, que era perito em radiestesia, contratado para detectar detectar poços petrolíferos no meio dos oceanos com um pêndulo e um mapa. Quase não me lembro do torpe feitiço que me lançaram, e da necessidade vital de libertar a minha alma desta prisão impregnada de caril chamada Ghandi. Vou continuar a escrever para me lembrar. Vou reflectir até me cairem os últimos cinco fios de cabelo, e vou vencer, porque a diferença entre mim e todos os estóicos é que eu sou estóico.

Sunday, July 23, 2006

Por vezes tenho recordações parvas da minha vida anterior. Hoje acordei com vontade de comer nachos.

Sem pensar, dirigi-me ao hipermercado, peguei em três pacotes de nachos e fui para a caixa. Quando chegou a hora de pagar não tinha dinheiro... Não valia a pena chafurdar no dhoti, Ghandi não usa dinheiro.

A fila prolongava-se e a senhora da caixa parecia impaciente. Mas não me apetecia deixar ali os nachos...
"Sou Ghandi" - disse-lhe, certo de que a convenceria - "se me deixar levar estes nachos sem pagar permito-lhe que me siga e se junte ao swaraj, o movimento pela libertação da Índia".
Ficou a olhar para mim, depois suspirou. Tentei outra abordagem, desta vez segredando-lhe ao ouvido para ninguém perceber:
"Sou da casta vaishya, uma casta abastada e influente. Seria uma desonra para este estabelecimento não me conceder estes pacotes de nachos, segundo o protocolo da hospitalidade".
A mulher não deve ter gostado do meu hálito a caril e pegou no telefone para chamar o segurança. Fiquei com uns escassos segundos para usar o último e derradeiro trunfo.
"Estou prestes a receber o Nobel da Paz. Sabe quanto é isso? O Nobel. Muitos pacotes de nachos."

Nessa altura senti dois gigantes agarrarem nos meus braços esqueléticos e arrastarem-me para longe dos nachos. Irritei-me profundamente, tão profundamente que quase pensei obscenidades. Mas Ghandi não pensa obscenidades. Ghandi faz greve de fome. Enquanto me arrastavam, ameacei-os com um jejum de duas semanas. Fui posto na rua.

Saturday, July 22, 2006

Achei numa dobra do meu dhoti, ontem, um voucher para usar na piscina do Hotel Inglaterra, no Estoril. Perto de sítios ricos há sempre pobres, e eu precisava de pobres para difundir a minha mensagem. Além disso o nome do hotel parecia-me apropriado para começar uma swaraj.

Como não podia conduzir descalço fui de comboio. As pessoas olhavam para mim e faziam comentários sobre o lençol que tinha enrolado. "Não é um lençol", expliquei-lhes pacientemente, "é um dhoti". Algumas fugiam. Senti uma humilhação dos pés aos óculos. Ser Ghandi não era a maravilha que muitos anunciavam. Em vez de me sentir prestes a receber o Nobel da Paz, sentia-me prestes a ser ostracizado por mendicidade ou foleirice.

Consegui fugir ao revisor andando de carruagem em carruagem, até sair no Estoril. Quando apresentei o voucher na recepção do hotel apressei-me a informar que não o tinha roubado. Roubar era contra os meus princípios. Eu nem devia precisar de voucher, porque era um líder espiritual. "Satya, entendem?". E se recusassem a minha entrada fazia greve de fome, ou pior, comia-lhes as plantas que tinham à entrada.
- Concerteza. Tem calção de banho? - perguntaram amavelmente.
- Não, - respondi - só esta fralda enrolada no cu.

Não me deixaram frequentar a piscina e expulsaram-me, como a todos os outros pobres que não encontrei. É horrível ser Ghandi, principalmente com este sol. O calor afasta os pobres, e sem pobres nem o Bhagavad Gita me vai valer. Começo mal.
O mundo não me conhece ainda, mas vai conhecer. O meu nome é Jaime Pacheco e sou um especialista na captação e transformação de energias ocultas. Tenho uma vasta experiência, nomeadamente no continente africano, Escócia e Estados Unidos. Infelizmente, tanta experiência não foi suficiente para não cometer um grave erro.

Eu dia eu estava a ler a "Metamorfose" de Kafka, e achei muito interessante a transformação numa espécie de barata gigante. Gosto de baratas. São bichos robustos e determinados. Por isso decidi provocar em mim uma metamorfose semelhante, controlando as energias.

Preparei-me durante dois meses e tentei, mas algo de muito errado aconteceu. Na manhã seguinte, quando acordei, estava transformado no Ghandi. Não sei onde falhei. Talvez as misteriosas correntes telúricas que atravessam Portugal me tenham perturbado, mas o meu instinto diz que foi um feitiço lançado por uma pessoa pequena.

O objectivo da minha vida é descobrir quem lançou esse feitiço e como o desfazer. E enquanto o faço, quero deixar este blog como relato da minha extraordinária experiência.

Friday, July 21, 2006



Este sou eu. Sou muito parecido com o Ghandi, porque fui alvo de um torpe feitiço.