A Feira Esotérica
Vagueava em Monsanto quando, talvez por simpatia do destino, apressei o passo e vi-me subitamente em Oeiras, junto ao portão da "Feira Esotérica". O segurança, muito prestável, deixou-me entrar sem pagar bilhete desejando-me "boa sorte para o negócio". Negócio, entendi, com a Verdade, pois temos de dar muito de nós para obter em troca um vislumbre da Verdade. Sorri-lhe e entrei.
O espaço estava cheio de pessoas, as barracas apinhadas de interesse pela espiritualidade e ninguém parecia troçar do meu dhoti. A minha felicidade era difícil de conter. Valera duplamente a pena, dizia para mim próprio, ter vagueado tanto, ter passado tanto frio, fome e humilhação. Pelo meu progresso, porque só se progride pela provação e o sacrifício, e pela minha felicidade, porque tinha chegado ao sítio onde o avanço espiritual era procurado freneticamente por todos os que lá estavam. Os Vedas não aconselham o frenesim como um bom método, bem sei, mas era preciso ver além dos Vedas. O que me interessava era o que animava e unia, no fundo, aquelas pessoas de diferentes crenças, e que era o progresso espiritual. Para se ser um bom mestre é preciso, primeiro, ser um bom aluno, e o bom aluno é o que tem capacidades, sim, mas também o ânimo para as dirigir na boa direcção! Por isso, pensei, com tanto ânimo talvez a Feira Esotérica de Oeiras fosse a semente de uma nova humanidade, com tanto amor a unir os Homens como o que une as estrelas e os planetas e tudo o resto no universo, e sorri para todos.
O meu desejo era observar todas as barracas com detalhe e aprender o mais possível. A que estava logo ao pé de mim era uma que dizia "fotografe a sua aura". Excitado, cheguei ao pé do dono da barraca e disse que queria experimentar essa maravilha e compreender o que era a aura. Ele respondeu-me que eram quinze euros. "Nunca tenho dinheiro", retorqui. Ele deve ter sentido muita pena, porque nunca mais olhou para mim.
Por sorte, a meu lado, um pouco enfastiados, dois estudantes de engenharia, objectivos e quase tão humildemente vestidos como eu, falavam sobre campos eléctricos de alta voltagem. Esfomeado de conhecimento, apresentei-me e perguntei-lhes como funcionava a maravilha que captava a aura. Responderam-me, alegres pela pergunta, que "eram apenas fotografias do tipo Kirlian, um electricista russo que inventou um método para registar a aura, a cores, com uma corrente eléctrica de alta frequência, baixa amperagem e alta voltagem, que basicamente ionizava os gases, por exemplo a humidade, em torno de um objecto", e que "era tudo uma fraude, porque no vácuo a aura aparecia tanto como o 5 no sistema binário", e ainda que "as fotografias também mostravam auras em seres inanimados, na Wikipedia até estava a fotografia da aura de uma moeda; e que, se pudessem, a encontravam facilmente e aos arco-íris na lingerie na Soraia Chaves". Ainda não sei quem é essa Soraia Chaves, mas é possível que seja uma mentora espiritual para os engenheiros.
O homem da barraca, atento ao nosso diálogo, interrompeu-nos em defesa da sua ciência. Parecia indignado. Disse muitas coisas seguidas e rápidas, das quais só me lembro de poucas. Falou de electrobiografia, beogramas, florais de Bach, curas baseadas nas auras desses florais e das pessoas, e energia universal do bem, acrescentando diversas vezes a expressão "meus ignorantes da merda" ao início ou ao fim das suas frases. Os estudantes envolveram-se na discussão ainda mais animados do que antes, desenvolvendo temas como fraude, estupidez e campos de alta voltagem no interior do orifício rectal, entre algum vernáculo popular, pois todos eram pessoas simples do povo. "Como é bela a paixão destes jovens pela justiça", reflectia eu entre eles, "e como brilha a esperança daquele homem na sua ciência!". Depois fui empurrado pela multidão que se amontoava ali para ver a disputa, todos interessados em colher argumentos como as abelhas colhem o mel - argumentos como degraus da escada da Verdade, para a sua edificação pessoal e de todos os outros.
Levantei-me junto à barraca da ovnilogia. A conversa anterior fora como uma meditação, enchera-me de paz e vontade de observar. Por isso observei longamente os livros desta barraca. Os que tinham pequenos homens esqueléticos com grandes cabeças fizeram reflorescer em mim belas sensações da minha infância na Índia. E por isso pensei alto: será possível algum ser evoluído emanar algo diferente do amor universal? Tão alto que o senhor da barraca me ouviu e fez questão de me corrigir. Segundo ele, muitas histórias apontavam para uma malvadez fria e científica daquelas criaturas, que raptavam seres humanos para experimentação laboratorial, como faziam os japoneses e os nazis na Segunda Guerra. Notei que quanto mais falava mais assustado ele ia ficando, pois acreditava em tudo o que dizia. Aprendi muito sobre extraterrestres, sobre como construiram a Atlântida, Stonehenge, as cabeças da Ilha da Páscoa e as pirâmides egípcias e maias; aprendi (num discurso apenas sussurrado, para ninguém desconfiar) sobre como estavam infiltrados na nossa sociedade, encobrindo a sua aparência de esqueletos cabeçudos e lagartos gigantes com pele humana; e aprendi sobre as tentativas de governos poderosos para encobrir estas revelações, e sobre o plano de dominarem finalmente o planeta em 2012. Tudo isto em apenas meia hora.
Terminado o seu discurso, o simpático senhor suava e olhava em volta desconfiado.
- Sabe, hoje em dia a tecnologia rouba-nos a privacidade... O avanço tecnológico, de onde pensa que vem? É mais um truque deles para nos vigiar e controlar. Enquanto milhões se sentam em frente às televisões e aos computadores, perdendo capacidades físicas e mentais, adormecendo numa frágil letargia, eles infiltram-se nos exércitos e nos governos - como os judeus, a Maçonaria, os comunistas! Depois de tantos raptos e estudos ficaram a saber como é que se domina um ser humano e todas as fragilidades das nossas sociedades! Aproveite agora para ler e ficar alerta, porque depois da guerra seremos todos escravizados. A África das Descobertas extender-se-á, no século XXI, ao planeta inteiro! Mais tarde, se existir literatura em Orion, a maior obra deles será uma espécie de Lusíadas de outro mundo: um grande poema épico sobre a descoberta da Terra, a sua colonização e todas as desgraças que lançaram sobre nós!
Sorri.
- Tenha calma, senhor - disse-lhe - porque não há nada a temer. Nenhuma criatura do espaço pode vencer o amor universal que guardamos no peito. Nem os ingleses o conseguiram, senhor. O amor é invencível, não se pode escravizar quem ama. O amor liga-nos a todas as coisas. O homem que ama, senhor, guarda todo o universo, que é infinito. Nem o ser mais poderoso pode trancar o universo numa cela.
Vi o senhor ficar perplexo e confuso com o meu discurso. Não percebia o que eu queria dizer, mas dava-me o benefício da dúvida, talvez por estar muito assustado e ver em mim uma possível ajuda.
- Não me enerve! O que é que está a dizer? Imagine que tem diante de si um exército de extraterrestres fortemente armado, e você, e os seus amigos, e a sua família, não têm protecção. Para piorar a situação, imagine que alguns dos seus amigos e familiares se revelam, de repente, extraterrestres disfarçados e o atacam de surpresa. O que é que faz nessa situação, diga-me? Porque é disso que estamos a falar, é esta a realidade!
- Senhor, já estive em situações piores, e o que faço sempre é meditar. Ao meditar transformo-me no planeta em que estamos, que está vivo e tem sentidos ampliados. Ponho, como se põe um manto, às costas o oceano azul raiado de Sol e danço como as marés. A minha vontade cresce e desacelera, torna-se como as nuvens, colossal, lenta e majestosa na direcção da brisa; o meu peito enche-se do magma que há no centro da Terra, com um calor que chegaria para amar todos os homens deste e doutros mundos em várias vidas. Nada disto é extraordinário: sou apenas eu a voltar a mim próprio, àquilo que deveras sou. E por nada ser extraordinário passo a respirar a paz dos desertos.
Atrás de mim ouvi uma voz:
- Há algum médico nesta feira? Parece que está aqui alguém a ter um ataque de paganismo!
Eram os estudantes de engenharia outra vez. Fiquei feliz ao vê-los. Mas contarei o que aconteceu noutra altura, porque chegou a hora de cantar os mantras a Indra e Agni.
Friday, March 14, 2008
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