Não esqueçais as marinhas creaturas

Sunday, July 24, 2016

Reunião de apresentação

Fui levado para uma sala onde estavam reunidas personalidades importantes da empresa, segundo me foi dito. Decoravam as paredes vários quadros, todos com frases de Deepak Chopra à excepção de dois, um que tinha uma revelação d’”O Segredo” e outro com uma frase de Joseph Goebbels. O CEO apresentou-se a si primeiro e depois aos outros, que não falaram. O olhar desses era incerto, como se temessem um ataque inesperado. Senti alguma pena e por isso pus a mão no coração e disse:

- Benditos sejam todos. Que unidos consigamos…

- Sr. Chopra – cortou o CEO sem rodeios – já seguimos a sua filosofia há algum tempo.

Apontou para um dos quadros da parede, um que tinha uma frase muito bonita dizendo: “Always go with our passions. Never ask yourself it it’s realistic or not.”.

- Sabe o que esta empresa faz, sr. Chopra?

Tinha visto muitas pessoas em grupos andando de um lado para o outro incessantemente, mas não sabia realmente o que faziam, se caçavam pokémons ou a verdade filosofando sobre o universo e a vida. Talvez o objectivo fosse somente agrupar pessoas - um objectivo nobre, exterminar a solidão! Esperançado decidi devolver a pergunta, mas o CEO não quis perder tempo e respondeu ele mesmo.

- Mudança! Transformação! Esta empresa dedica-se a mudar, a transformar! – disse ele em pé fazendo largos e gloriosos gestos com os braços.

- A mudar o quê, meu senhor?

Um laivo de irritação atravessou-lhe o rosto em reacção à minha pergunta. Apontou para outro quadro onde dizia “When you make a choice, you change the future”.

- Novo. Futuro. Um novo futuro. Esta empresa decide, muda e transforma para criar um novo futuro.

- Mas muda o quê, meu senhor?

Desta vez a expressão alterou-se como a da rapariga que me tinha conduzido à sala e fitou-me com uma raiva inigualável. Talvez não gostasse de perguntas. Tentei transmitir bondade através da linguagem universal do sorriso mas isso deixou-o ainda mais furioso.

- Esta empresa muda-se a si mesma! A si mesma! A! SI! MESMA! – gritava ele enquanto dava fortes pancadas na mesa e no quadro. Tudo abanava como se estivesse a ocorrer um terramoto e todos os outros, apesar de encolhidos de medo, pareciam estar familiarizados com a situação. Naquela altura tive a certeza que os meus óculos não sairiam dali inteiros, mas o homem acalmou-se tão depressa como se tinha irritado, voltando a sorrir para mim.

- Mudar é preciso: quem não muda morre. Mas, believe me, não se muda sem esforço. É preciso doutrinar a mudança, muitas vezes, à multidão dos acomodados. Abrir-lhes os olhos e castigá-los caso não os queiram abrir, cegá-los caso se recusem a ver. E recompensar os que vêem o mesmo que nós. Não é assim sr. Chopra?

Abri a boca para falar mas não tive tempo. O CEO era sem dúvida um daqueles raros homens que se moviam pela paixão, e eu um daqueles raros homens com a sorte de o conhecer. Estava muito feliz apesar de não conseguir exprimir a minha felicidade em palavras.

- Apesar de tudo o que já fizemos e escrevemos desconfiamos que muitos nesta empresa continuam sem acreditar. Não pode ser. Cannot afford it. Uma empresa em dificuldades financeiras não se pode dar ao luxo de ter acomodados que em vez de trabalhar para o novo futuro inventam problemas e mais problemas para permanecer no passado! Por isso o contratámos a si, sr. Chopra, o maior guru espiritual do mundo e o maior perito em mudança do universo, para lhes dar um workshop com o objectivo de desbloquear os espíritos e pô-los todos alinhados, todos com os mesmos pensamentos e objectivos, finalmente profissionais.

Nessa altura tentei exprimir uma satisfação incontida e dizer que sem dúvida faria o workshop por uma luta pacífica, uma Satyagraha, que libertasse o Algarve, mas a sua paixão não me deu qualquer hipótese.

- Porque temos de ter todos os mesmos objectivos! A empresa somos todos! Colectivo! Sucesso! Não quero heróis! Quero todos a pensar a mesma coisa! Mas a minha ambição não pára aí: quero também recompensar aqueles que se distinguem a não se distinguir. Quero dar um prémio ao colaborador do mês – àquele que, apesar de ter trabalhado 24/7 como eu, conseguiu fazê-lo apenas pela empresa e pela equipa, não se distinguindo individualmente em qualquer objectivo cumprido! Mas isso só é possível se todos acreditarem. Para isso conto consigo, sr. Chopra.

Reparei que nessa altura algumas pessoas tinham o esgar, ainda que subtil, de quem tinha comido o terceiro limão da manhã. Outros pareciam estar a prender o vómito. Mas todos aplaudiram efusivamente o líder, que era sem dúvida muito amado e prezado pela sua paixão, dedicação e inteligência. Era um amor muito bonito que se sobrepunha a tudo, até ao próprio nojo, e por isso correram-me duas lágrimas pela face.

Quando acabei de limpar os olhos o CEO já tinha saído e os outros estavam levantados. Todos me cumprimentaram pessoalmente. Percebi que eram grandes adeptos do tal mestre Chopra e que há muito tentavam implementar os seus métodos - a mando dos próprios accionistas, como me disse um deles. Era tudo muito bonito, só não tinha ainda percebido como é que uma empresa que constantemente se mudava a si mesma fazia negócio, dada a minha total inexperiência na área económica e financeira. Por isso tentei explorar o assunto com três que se tinham reunido à minha volta para saberem mais sobre inspiração e sucesso.

- Nunca tinha conhecido uma empresa criada para mudar-se a si mesma. Mas deve ser um caso único e merece por isso os parabéns de todos nós.

Todos concordaram. Um deles chegou até a bater palmas por reflexo pavloviano, julgo eu. E outro disse:

- Bom, nem sempre foi assim. Durante muitos anos isto foi uma empresa que produziu software. Só recentemente é que passou a produzir mudanças.

- Estávamos perdidos de continuássemos acomodados à produção de software! – acrescentou o terceiro - Definhávamos. Morríamos. É preciso mudar para ser competitivo e vencer os desafios do mundo moderno.

Pareceu-me a altura indicada para voltar à minha questão.

- Mas mudar o quê exactamente?


Ninguém me respondeu. Um correu dizendo que tinha outra reunião a começar e os outros dois saíram com os olhos postos nos respectivos smartphones. Fiquei sozinho na sala.

Sou Deepak Chopra

Observei, sentado, as pessoas na empresa. Andavam geralmente em molhos, em direcção a algum sítio, e depois de algum tempo voltavam a passar, ainda juntas, noutra direcção. Faziam isto inúmeras vezes, o que me fascinou. O que faria aquela empresa? Tinha ouvido numa nova moda em que seres humanos se reuniam para caçar criaturas inexistentes chamadas pokémons, obedecendo ao mesmo padrão de comportamento, e foi essa a minha primeira hipótese: estar numa empresa dedicada à caça de pokémons.

Era fascinante. Nessa altura uma rapariga muito jovem ofereceu-me um bolinho. Agradeci e, já que não comia nada há 32 horas, devorei uma metade e guardei a outra para dar aos pobres.

- Por favor acompanhe-me, sr. Chopra.

- O meu nome é Ghandi.

- Não é não.Veja. – respondeu ela com simpatia, mostrando-me um email impresso com o calendário de um workshop de coaching new age apresentado por alguém chamado “Deepak Chopra”.

- Obrigado, é muito bonito. Tantas cores. Uma delas é da bandeira do meu país. Mas eu não sou o sr. Deepak Chopra.

Ela levantou o papel à altura da minha cara, apontando para o nome que estava lá escrito. Não me parecia admitir argumentação, pela transição súbita da expressão simpática para uma de extraordinária agressividade. Achei melhor não dizer mais nada reflectindo na fragilidade da armação dos meus óculos. Se estava escrito, talvez eu fosse mesmo o sr. Deepak Chopra. Ou talvez me encontrasse num daqueles sítios onde a dúvida não existe, como nos templos sagrados. O meu coração inchou de alegria e tive uma tontura.

Recuperação de património

Andava por Espanha, França, Bélgica, Luxemburgo, Alemanha, Itália e outros países da Europa, quando no fim de uma longa meditação olhei em volta e vi que estava nos jardins do palácio do Marquês de Pombal.

Não soube, a princípio, porque voltei a Oeiras e não a Porbandar, onde nasci, mas era óbvio: eu não nasci em Porbandar porque eu não nasci Ghandi, eu tornei-me Ghandi. Antes eu era Jaime Pacheco, um escritor especializado em imbecilidade. É um estilo literário que não me interessa, a imbecilidade, nem a mim nem ao mundo livre, dado que atrai ingleses em vez de os repelir. Muita gente acaba por evitar contos imbecis por recear o regresso do império britânico.

Aparentemente escrevi um livro. Um senhor meio torto aproximou-se e disse: “olhe o seu livro!”, e atirou-me com um manuscrito aos óculos. Reconheci-o como o meu antigo vizinho da frente, sorri, agradeci, apanhei os óculos e guardei o volume dentro do dhoti. Era afinal uma parte de mim e tinha de cuidar dela.

Para comemorar, não a recuperação de património, mas o gesto gentil que a concretizou, fiz uma caminhada de 14 quilómetros para leste. Parei junto de uma fonte para me refrescar e nessa altura um senhor bem apresentado chegou ao pé de mim:

- Ah, é uma honra encontrá-lo! Está adiantado, só o esperava amanhã. Venha, venha!

- Muito obrigado amigo! Mas não estará a confundir-me com alguém? O meu nome é…

- Impossível! Conheço muito bem gurus da sua área, acredite! E é de si que precisamos.

Se a felicidade fosse líquida teria transbordado naquela altura por todos os poros da minha pele e criado um lago paradisíaco. O meu sorriso foi tão largo que me deu a sensação das orelhas se juntarem atrás da cabeça. Tinha finalmente encontrado alguém interessado numa Satyagraha em Portugal, ou seja, não estava sozinho na minha demanda de expulsar o império britânico do Algarve. Prometi jejuns a Brahma, Vishnu e Shiva. Apeteceu-me correr como uma criança e saltar como um animal, mas não o fiz. Apenas acompanhei o homem civilizadamente.

Entrámos num edifício alto, com muitas janelas, e subimos pelo elevador. Chegámos à recepção de uma empresa, onde se sentava uma recepcionista isolada.

- Por favor M., anuncie que o sr. Deepak Chopra chegou.

- Mas eu não sou o sr. Deepak Chopra, o meu nome é Jaime Ghandi. – corrigi.

O homem olhou para mim alguns segundos, concentrado nalguma coisa importante. E depois sorriu com os olhos.

- “If we are creating ourselves all the time, then it is never too late to begin creating the bodies we want instead of the ones we mistakenly assume we are stuck with”. “The most creative act you will ever undertake is the act of creating yourself”. Li todos os seus livros. Obrigado por me iluminar, sr. Chopra.


Não percebi mas devolvi o sorriso. Depois sentei-me num sofá e esperei, com o meu livro sob o dhoti.

Tuesday, July 05, 2016

O meu livro

Quando saí da Feira Esotérica apeteceu-me caminhar. Caminhei durante 8 anos pela Europa empenhado numa nova Satyagraha, produzindo potentes jejuns para expulsar os ingleses. Posso dizer que fui uma vez mais bem sucedido: expulsei-os da União Europeia e de dois campeonatos europeus de futebol. A maior demanda está porém ainda para vir: o Algarve.

Entretanto fui obrigado a publicar um livro. É uma história de difícil crédito, como todas as que fazem parte deste maravilhoso mundo, e que contarei mais tarde. O livro chama-se “Diálogos Imbecis”, está à venda na Kindle Store da Amazon e tem um preço simbólico. Todo o dinheiro que eu ganhar será doado aos pobres - não aos pobres de bens materiais, mas aos pobres de espírito. Ao Donald Trump, por exemplo. Porque são esses os que mais precisam. E não é do dinheiro que precisam, mas do gesto que lhes devolverá a luz à alma e ao coração.

Por isso comprem o meu livro. Não é bem meu, mas é. Foi escrito pela minha personalidade anterior, o sr. Jaime Pacheco. Um vizinho achou-o no lixo e na verdade não sei do que trata, ainda não o li porque a minha demanda não me liberta muito tempo para leitura. Anseio que seja algo entre uma obra-prima da literatura e uma filosofia prática, firme, benevolente e pacífica para expulsar ingleses. O título é “Diálogos Imbecis” e pode ser encontrado através desta ligação: https://www.amazon.com/Di%C3%A1logos-Imbecis-Portuguese-Jaime-Ghandi-ebook/dp/B01HPGMR2U/ref=redir_mobile_desktop?ie=UTF8&ref=aw_sitb_digital-text#nav-subnav .



Que os Vedas estejam convosco, e vice-versa.

J. Mohandas K. P. Ghandi