Fui levado para uma sala onde estavam reunidas personalidades
importantes da empresa, segundo me foi dito. Decoravam as paredes vários
quadros, todos com frases de Deepak Chopra à excepção de dois, um que tinha uma
revelação d’”O Segredo” e outro com uma frase de Joseph Goebbels. O CEO apresentou-se
a si primeiro e depois aos outros, que não falaram. O olhar desses era incerto,
como se temessem um ataque inesperado. Senti alguma pena e por isso pus a mão
no coração e disse:
- Benditos sejam todos. Que unidos consigamos…
- Sr. Chopra – cortou o CEO sem rodeios – já seguimos a sua
filosofia há algum tempo.
Apontou para um dos quadros da parede, um que tinha uma frase muito
bonita dizendo: “Always go with our passions. Never ask yourself it it’s
realistic or not.”.
- Sabe o que esta empresa faz, sr. Chopra?
Tinha visto muitas pessoas em grupos andando de um lado para o
outro incessantemente, mas não sabia realmente o que faziam, se caçavam
pokémons ou a verdade filosofando sobre o universo e a vida. Talvez o objectivo
fosse somente agrupar pessoas - um objectivo nobre, exterminar a solidão! Esperançado
decidi devolver a pergunta, mas o CEO não quis perder tempo e respondeu ele
mesmo.
- Mudança! Transformação! Esta empresa dedica-se a mudar, a
transformar! – disse ele em pé fazendo largos e gloriosos gestos com os braços.
- A mudar o quê, meu senhor?
Um laivo de irritação atravessou-lhe o rosto em reacção à minha
pergunta. Apontou para outro quadro onde dizia “When you make a
choice, you change the future”.
- Novo. Futuro. Um novo futuro. Esta empresa decide, muda e transforma
para criar um novo futuro.
- Mas muda o quê, meu senhor?
Desta vez a expressão alterou-se como a da rapariga que me tinha
conduzido à sala e fitou-me com uma raiva inigualável. Talvez não gostasse de
perguntas. Tentei transmitir bondade através da linguagem universal do sorriso mas
isso deixou-o ainda mais furioso.
- Esta empresa muda-se a si mesma! A si mesma! A! SI! MESMA! –
gritava ele enquanto dava fortes pancadas na mesa e no quadro. Tudo abanava
como se estivesse a ocorrer um terramoto e todos os outros, apesar de
encolhidos de medo, pareciam estar familiarizados com a situação. Naquela
altura tive a certeza que os meus óculos não sairiam dali inteiros, mas o homem
acalmou-se tão depressa como se tinha irritado, voltando a sorrir para mim.
- Mudar é preciso: quem não muda morre. Mas, believe me, não se
muda sem esforço. É preciso doutrinar a mudança, muitas vezes, à multidão dos acomodados.
Abrir-lhes os olhos e castigá-los caso não os queiram abrir, cegá-los caso se
recusem a ver. E recompensar os que vêem o mesmo que nós. Não é assim sr.
Chopra?
Abri a boca para falar mas não tive tempo. O CEO era sem dúvida um
daqueles raros homens que se moviam pela paixão, e eu um daqueles raros homens
com a sorte de o conhecer. Estava muito feliz apesar de não conseguir exprimir
a minha felicidade em palavras.
- Apesar de tudo o que já fizemos e escrevemos desconfiamos que
muitos nesta empresa continuam sem acreditar. Não pode ser. Cannot afford it. Uma
empresa em dificuldades financeiras não se pode dar ao luxo de ter acomodados
que em vez de trabalhar para o novo futuro inventam problemas e mais problemas
para permanecer no passado! Por isso o contratámos a si, sr. Chopra, o maior
guru espiritual do mundo e o maior perito em mudança do universo, para lhes dar
um workshop com o objectivo de desbloquear os espíritos e pô-los todos
alinhados, todos com os mesmos pensamentos e objectivos, finalmente
profissionais.
Nessa altura tentei exprimir uma satisfação incontida e dizer que sem
dúvida faria o workshop por uma luta pacífica, uma Satyagraha, que libertasse o
Algarve, mas a sua paixão não me deu qualquer hipótese.
- Porque temos de ter todos os mesmos objectivos! A empresa somos
todos! Colectivo! Sucesso! Não quero heróis! Quero todos a pensar a mesma
coisa! Mas a minha ambição não pára aí: quero também recompensar aqueles que se
distinguem a não se distinguir. Quero dar um prémio ao colaborador do mês –
àquele que, apesar de ter trabalhado 24/7 como eu, conseguiu fazê-lo apenas
pela empresa e pela equipa, não se distinguindo individualmente em qualquer
objectivo cumprido! Mas isso só é possível se todos acreditarem. Para isso
conto consigo, sr. Chopra.
Reparei que nessa altura algumas pessoas tinham o esgar, ainda que
subtil, de quem tinha comido o terceiro limão da manhã. Outros pareciam estar a
prender o vómito. Mas todos aplaudiram efusivamente o líder, que era sem dúvida
muito amado e prezado pela sua paixão, dedicação e inteligência. Era um amor
muito bonito que se sobrepunha a tudo, até ao próprio nojo, e por isso
correram-me duas lágrimas pela face.
Quando acabei de limpar os olhos o CEO já tinha saído e os outros
estavam levantados. Todos me cumprimentaram pessoalmente. Percebi que eram
grandes adeptos do tal mestre Chopra e que há muito tentavam implementar os
seus métodos - a mando dos próprios accionistas, como me disse um deles. Era
tudo muito bonito, só não tinha ainda percebido como é que uma empresa que constantemente
se mudava a si mesma fazia negócio, dada a minha total inexperiência na área
económica e financeira. Por isso tentei explorar o assunto com três que se
tinham reunido à minha volta para saberem mais sobre inspiração e sucesso.
- Nunca tinha conhecido uma empresa criada para mudar-se a si
mesma. Mas deve ser um caso único e merece por isso os parabéns de todos nós.
Todos concordaram. Um deles chegou até a bater palmas por reflexo
pavloviano, julgo eu. E outro disse:
- Bom, nem sempre foi assim. Durante muitos anos isto foi uma
empresa que produziu software. Só recentemente é que passou a produzir
mudanças.
- Estávamos perdidos de continuássemos acomodados à produção de
software! – acrescentou o terceiro - Definhávamos. Morríamos. É preciso mudar
para ser competitivo e vencer os desafios do mundo moderno.
Pareceu-me a altura indicada para voltar à minha questão.
- Mas mudar o quê exactamente?
Ninguém me respondeu. Um correu dizendo que tinha outra reunião a
começar e os outros dois saíram com os olhos postos nos respectivos
smartphones. Fiquei sozinho na sala.

