Andava por Espanha, França, Bélgica, Luxemburgo, Alemanha, Itália
e outros países da Europa, quando no fim de uma longa meditação olhei em volta
e vi que estava nos jardins do palácio do Marquês de Pombal.
Não soube, a princípio, porque voltei a Oeiras e não a Porbandar,
onde nasci, mas era óbvio: eu não nasci em Porbandar porque eu não nasci
Ghandi, eu tornei-me Ghandi. Antes eu era Jaime Pacheco, um escritor
especializado em imbecilidade. É um estilo literário que não me interessa, a
imbecilidade, nem a mim nem ao mundo livre, dado que atrai ingleses em vez de
os repelir. Muita gente acaba por evitar contos imbecis por recear o regresso
do império britânico.
Aparentemente escrevi um livro. Um senhor meio torto aproximou-se
e disse: “olhe o seu livro!”, e atirou-me com um manuscrito aos óculos.
Reconheci-o como o meu antigo vizinho da frente, sorri, agradeci, apanhei os
óculos e guardei o volume dentro do dhoti. Era afinal uma parte de mim e tinha
de cuidar dela.
Para comemorar, não a recuperação de património, mas o gesto
gentil que a concretizou, fiz uma caminhada de 14 quilómetros para leste. Parei
junto de uma fonte para me refrescar e nessa altura um senhor bem apresentado
chegou ao pé de mim:
- Ah, é uma honra encontrá-lo! Está adiantado, só o esperava
amanhã. Venha, venha!
- Muito obrigado amigo! Mas não estará a confundir-me com alguém?
O meu nome é…
- Impossível! Conheço muito bem gurus da sua área, acredite! E é
de si que precisamos.
Se a felicidade fosse líquida teria transbordado naquela altura
por todos os poros da minha pele e criado um lago paradisíaco. O meu sorriso
foi tão largo que me deu a sensação das orelhas se juntarem atrás da cabeça. Tinha
finalmente encontrado alguém interessado numa Satyagraha em Portugal, ou seja, não
estava sozinho na minha demanda de expulsar o império britânico do Algarve. Prometi
jejuns a Brahma, Vishnu e Shiva. Apeteceu-me correr como uma criança e saltar
como um animal, mas não o fiz. Apenas acompanhei o homem civilizadamente.
Entrámos num edifício alto, com muitas janelas, e subimos pelo
elevador. Chegámos à recepção de uma empresa, onde se sentava uma recepcionista
isolada.
- Por favor M., anuncie que o sr. Deepak Chopra chegou.
- Mas eu não sou o sr. Deepak Chopra, o meu nome é Jaime Ghandi. –
corrigi.
O homem olhou para mim alguns segundos, concentrado nalguma coisa
importante. E depois sorriu com os olhos.
- “If we are creating ourselves all
the time, then it is never too late to begin creating the bodies we want
instead of the ones we mistakenly assume we are stuck with”. “The most creative
act you will ever undertake is the act of creating yourself”. Li todos os seus livros. Obrigado por me
iluminar, sr. Chopra.
Não percebi mas devolvi o sorriso. Depois sentei-me num sofá e
esperei, com o meu livro sob o dhoti.

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