Não esqueçais as marinhas creaturas

Sunday, July 24, 2016

Recuperação de património

Andava por Espanha, França, Bélgica, Luxemburgo, Alemanha, Itália e outros países da Europa, quando no fim de uma longa meditação olhei em volta e vi que estava nos jardins do palácio do Marquês de Pombal.

Não soube, a princípio, porque voltei a Oeiras e não a Porbandar, onde nasci, mas era óbvio: eu não nasci em Porbandar porque eu não nasci Ghandi, eu tornei-me Ghandi. Antes eu era Jaime Pacheco, um escritor especializado em imbecilidade. É um estilo literário que não me interessa, a imbecilidade, nem a mim nem ao mundo livre, dado que atrai ingleses em vez de os repelir. Muita gente acaba por evitar contos imbecis por recear o regresso do império britânico.

Aparentemente escrevi um livro. Um senhor meio torto aproximou-se e disse: “olhe o seu livro!”, e atirou-me com um manuscrito aos óculos. Reconheci-o como o meu antigo vizinho da frente, sorri, agradeci, apanhei os óculos e guardei o volume dentro do dhoti. Era afinal uma parte de mim e tinha de cuidar dela.

Para comemorar, não a recuperação de património, mas o gesto gentil que a concretizou, fiz uma caminhada de 14 quilómetros para leste. Parei junto de uma fonte para me refrescar e nessa altura um senhor bem apresentado chegou ao pé de mim:

- Ah, é uma honra encontrá-lo! Está adiantado, só o esperava amanhã. Venha, venha!

- Muito obrigado amigo! Mas não estará a confundir-me com alguém? O meu nome é…

- Impossível! Conheço muito bem gurus da sua área, acredite! E é de si que precisamos.

Se a felicidade fosse líquida teria transbordado naquela altura por todos os poros da minha pele e criado um lago paradisíaco. O meu sorriso foi tão largo que me deu a sensação das orelhas se juntarem atrás da cabeça. Tinha finalmente encontrado alguém interessado numa Satyagraha em Portugal, ou seja, não estava sozinho na minha demanda de expulsar o império britânico do Algarve. Prometi jejuns a Brahma, Vishnu e Shiva. Apeteceu-me correr como uma criança e saltar como um animal, mas não o fiz. Apenas acompanhei o homem civilizadamente.

Entrámos num edifício alto, com muitas janelas, e subimos pelo elevador. Chegámos à recepção de uma empresa, onde se sentava uma recepcionista isolada.

- Por favor M., anuncie que o sr. Deepak Chopra chegou.

- Mas eu não sou o sr. Deepak Chopra, o meu nome é Jaime Ghandi. – corrigi.

O homem olhou para mim alguns segundos, concentrado nalguma coisa importante. E depois sorriu com os olhos.

- “If we are creating ourselves all the time, then it is never too late to begin creating the bodies we want instead of the ones we mistakenly assume we are stuck with”. “The most creative act you will ever undertake is the act of creating yourself”. Li todos os seus livros. Obrigado por me iluminar, sr. Chopra.


Não percebi mas devolvi o sorriso. Depois sentei-me num sofá e esperei, com o meu livro sob o dhoti.

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