Depois de uma semana de internamento não consegui saber que males tinha o meu corpo, mas consegui recuperar parcialmente e sair. Ouvi dizer que tinham falta de camas e por isso me dispensavam mais cedo. Fiquei contente por ceder a minha cama a alguém mais desfavorecido do que eu. Apenas me deram uma ordem: que me apresentasse no centro de saúde da minha zona para tirar os pontos.
Foi assim que descobri a ciência de "tirar os pontos", uma ciência tão aperfeiçoada neste país que é fechada atrás de inúmeras portas e de um enorme labirinto, como um tesouro real.
Comecei por achar o centro de saúde perguntando a várias pessoas onde era. Entrei, era um sítio simpático, sem ninguém àquela hora, um bom espaço para meditação. Dirigi-me ao senhor da recepção.
- Boa tarde, senhor! Venho tirar os pontos seguindo as instruções do bom hospital de São José.
- Tem senha? - disse ele sem levantar os olhos.
- Não tenho senhor.
- Sem senha não o posso atender.
Descobri onde se tiravam as senhas, e tirei o 97. O mostrador indicava que tinha de esperar 6 números, mas não estava ninguém na sala. Provavelmente as pessoas já tinham desistido, pensei. Por 3, 4 ou 5 números, as pessoas desistiam. Seria assim tão fraca a paciência? Não podia ser, as pessoas deviam ter tido alguma coisa urgente para fazer, ou um miúdo, na brincadeira, atirara uma série de senhas para o lixo. A juventude, ah, saúde de não saber nada... Sorri e esperei.
Quinze minutos depois ainda esperava e ninguém aparecia. Incluindo na recepção. O senhor tinha ido tomar um café. Fiz meditação. Cinco minutos depois fui interrompido pelo grunhido estridente de um elefante indiano em fúria. Olhei, assustado, em redor, à procura da manada, mas descobri que a fonte era apenas uma coluna de som em mau estado que servia possivelmente para acordar os mais sonolentos na sala de espera. Os números avançaram uma unidade, para o 92. Era suspeito. Na recepção o senhor já lá estava outra vez, olhando-me fixamente, mas mais ninguém.
Os números avançaram rápido - 93, 94... até ao 97. Sorri e levantei-me. Era finalmente a minha vez. Mas os números não paravam - 98, 99... Cheguei ao "guichet" e reparei que o senhor estava agressivo.
- Não me ouviu a chamá-lo?
- Não, senhor - sorri-lhe, associando de repente o som estridente que ouvira ao seu real significado - pensei que fosse um elefante indiano em fúria.
- Está a gozar comigo? Eu já o chamei! Tem a senha?
- Tenho sim, senhor. - E dei-lhe a senha 97.
- 97? Está a gozar comigo! Isto já vai na 100! Como é que quer que o atenda se não tiver a 100?
Fui outra vez à máquina das senhas, tirei a 100 e entreguei-lha.
- O que é que quer?
- Venho tirar os pontos seguindo as instruções do bom hospital de São José.
- Qual é o seu médico de família?
- Não tenho.
- Não tem? Então não posso fazer nada. Tem de ter médico de família.
- Está bem senhor. Obtenha-me um médico de família, por favor.
- Cartão do utente?
- Não tenho.
- Não tem cartão do utente? - a voz do homem denotava uma irritação crescente. - Tem que pedir um!
- Onde?
- No guichet E.
- Mas não está lá ninguém, senhor.
- Guichet E. Tire a senha que diz "guichet E" - manteve, e não olhou mais para mim.
Fui tirar a senha. Desta vez era o número a seguir. O centro estava vazio. Só tive de esperar mais 10 minutos até à minha vez. No guichet E estava o mesmo homem que me atendera. Ele estava em todos os guichets, zelando sozinho pela ordem da recepção.
- Tem a senha?
- Está aqui, senhor.
- O que é que quer?
- Almejo obter um cartão de utente, de forma a ser beneficiado com um médico de família que me possa tirar os pontos seguindo as instruções do bom hospital de São José.
- Bilhete de identidade.
Ainda tinha comigo o bilhete da minha antiga identidade, e achando que servia dei-lho.
- Muito bem, sr. Jaime Pacheco. Ainda não possuirmos as tecnologias avançadas dos clubes de vídeo, que permitem fazer cartões em minutos, mas também não estamos mal. O seu cartão do utente estará pronto daqui a um ano.
- Senhor, só poderei tirar os pontos daqui a um ano?
- Não me interrompa que eu também não o interrompi. Entretanto tem aqui esta guia de substituição que pode apresentar em vez do cartão. Atribui-lhe o dr. M como médico de família, mas em carácter provisório, porque nem sempre ele aceita pacientes. Vai ter que falar com ele e pedir-lhe para ser o seu médico, só então lhe poderei validar a guia e marcar uma consulta. Boa tarde, próximo.
- Boa tarde senhor, muito obrigado! Onde poderei falar com o dr. M?
As minhas perguntas, notei, começavam a ser inconvenientes. O homem parecia estar a fazer um último esforço para não me esmurrar.
- Entre na última porta deste corredor e espere à porta do consultório. Próximo!
Dirigi-me à porta assinalada com uma placa a dizer "Dr. M", e esperei três horas. Findo esse tempo, um segurança veio avisar-me que o centro estava a fechar, e que tinha de sair.
- Mas tenho de falar com o dr. M, senhor, para que seja validada a guia que me permitirá marcar uma consulta para o meu médico de família, que me tirará os pontos seguindo as instruções do bom hospital de São José.
- O dr. M está de férias. - disse-me ele com maus modos e o dobro da minha altura - Agora ponha-se daqui para fora.
Tive de ir. Mas tinha conseguido alguma coisa. Tinha-me aproximado de uma solução e sentia-me feliz por pertencer a um sistema tão organizado, que tanta atenção dispensa à saúde, criando novelos de regras para que tudo funcione sem excepções. Voltei ao centro nos dias que se seguiram, esperando várias horas pelo dr. M. Num dia ele estava em greve, noutro em reunião, noutro de baixa, e depois entrou em férias outra vez. Para a recepção, mesmo para os computadores do centro, a vida do dr. M era incógnita e por isso, em nome da discrição, mandavam-me sempre esperar à porta, o que eu fiz durante duas semanas com alegria e determinação.
Um dia consegui. Uma médica nova, a dra. I, que partilhava o consultório com o dr. M tropeçou em mim e tanto se apiedou com a minha situação que aceitou, pelo dr., a minha inscrição. A minha guia de substituição foi finalmente validada e pude marcar uma consulta para o mais cedo possível, que era dali a dois meses.
Dois meses depois fui à minha consulta. Dirigi-me à recepção e deram-me uma folha, sem contudo me dizerem que era preciso colocá-la numa caixinha de madeira à porta do consultório. Segundo descobri mais tarde, toda a comunicação entre a recepção do centro e os médicos é feita pelos próprios pacientes, e não por computadores, por uma questão de humanidade.
Esperei poucas horas com o papel na mão até que por sorte o médico saiu para beber um café e reparou em mim. Perguntou se eu não era o "Jaime Pacheco" que tinha consulta marcada. Disse-lhe com um sorriso que sim, era eu mesmo, ainda que tivesse outro nome, e mostrei-lhe o papel.
- Então não sabe que isso se põe ali à porta do consultório? Toda a gente sabe isso. Ena, grande infecção tem aí... Não cuide disso não! Bom, tenho um compromisso agora há hora do almoço, se quiser pode passar cá à tarde que faço um jeitinho e atendo-o...
À tarde, e por grande favor, de que ainda estou reconhecido, pude finalmente ter a consulta com o dr. M.
- Então diga lá - disse ele, muito simpático.
- Tenho aqui estes pontos para tirar.
- Esses pontos... deixe lá ver. Esses pontos já estão infectados, podres seria o termo técnico. É capaz de doer. Não sabe que não se pode esperar meses por uma coisa dessas?
Sorri. Ia começar a falar quando ele me interrompeu:
- Infelizmente não os posso tirar. Esse trabalho é feito pelas enfermeiras. Dirija-se à enfermaria. Hoje já fechou e amanhã há greve outra vez, tente depois do fim-de-semana. Próximo.
Pareceu-me excelente. Mais quatro dias e o meu problema estaria resolvido. Dei uns passos na direcção da saída e perdi os sentidos. Quando acordei estava num sítio familiar: o bom hospital de São José. Estando a enfermaria fechada, e os médicos interditados de tirar pontos, tinham-me levado de ambulância para o hospital outra vez. Sinto-me muito melhor. Já não tenho os pontos, apenas a infecção, mas ouvi dizer no corredor que tenho boas hipóteses de sobreviver.
Tuesday, September 12, 2006
Thursday, August 24, 2006
Escrevo este texto a partir de um convento do século XVI, outrora chamado de Santo Antão e habitado pela Companhia de Jesus, com excelente vista para o rio. Ou seja, escrevo-vos do hospital de S. José, onde estou internado há quatro dias e muito feliz. Um bom homem na cama vizinha, que está de momento a lutar com a morte premindo em desespero o botão que chama as enfermeiras, desde há meia hora, emprestou-me um pocket pc que me permite publicar a minha nova aventura, que começa assim:
"Esse nacionalismo inquinado de fé católica, esse patriotismo viciado de uma religião estranha!", ecoava no domingo um vizinho na escada do prédio, citando Fernando Pessoa, que foi um grande poeta e homem de vasta inteligência.
A religião é das coisas mais fundamentais para um povo, mesmo uma que ignore os Vedas, porque é um bastião de defesa para altos valores que de outra forma não sobreviveriam às modas.
Decidi por isso investigar. Vesti a minha fralda de cerimónia, o meu dhoti mais branquinho e dirigi-me à igreja mais próxima. "É verdade", pensava eu na minha sucessão de passos, "que Fernando Pessoa morreu em 1935, mas também é verdade que ouço toda a gente dizer que está sempre tudo na mesma, logo Portugal deve ser uma espécie de máquina do tempo e para viajar no princípio do século XX ou no final do século XIX basta sair de casa".
"Aposto comigo próprio um cubo de tofu em como Fernando Pessoa estava errado. Ele dizia que a verdadeira religião portuguesa era o sebastianismo, e não o catolicismo que a maioria dos populares idolatra. Pois eu aposto que toda a gente naquela igreja conhece melhor a Bíblia do que eu o Bhagavad-Gita, e melhor o seu país do que eu a Índia. Nacionalismo inquinado e estranho é o desse Pessoa e dos intelectuais da sua geração, que para serem diferentes do vulgo inventaram nacionalismos e religiões de escol, cada um com a sua versão. Qualquer país é o coração do povo, e não depósitos marginais e isolados de correntes elitistas."
Nestes pensamentos eu nadava quando cheguei ao templo católico. Ainda não era hora da missa, por isso decidi sentar-me nos degraus e esperar, sempre a sorrir apesar do sol abrasador que me queimava a face. Uma senhora mais velha que eu, acompanhada de um grupo de beatas, aproximou-se de mim e ofereceu-me uma esmola:
- Coitadinho! - disse ela às amigas - Tão magrinho! Toma e vai comer qualquer coisinha à pastelaria, vai!
Sorri-lhe. O espírito católico brilhava mais e emanava mais calor do que o sol na minha face. Era por aquilo que eu amava todas as religiões do mundo.
- Obrigado minha senhora. - disse eu tentando esboçar a melhor expressão que podia ter com os olhos a arder - Obrigado por perpetuar a Verdade no coração dos homens.
Não esperava a reacção que se seguiu. Ela deu-me discretamente um pontapé numa coxa e segredou-me para me ir embora imediatamente, porque a missa estava quase a começar e parecia mal estar ali a sujar as escadas da igreja. Reparei que na direcção que apontava o seu dedo hirto e determinado estava, talvez a 200 metros, um molho de mendigos andrajosos e doentes.
- Xô, desaparece! O que é que o senhor padre vai dizer? Vai comprar a merenda e sai daqui, está dito! - insistiu ela batendo o pé, como se expulsasse um cão, enquanto eu pensava no que fazer. Decidi contar-lhe gentilmente a verdade, que mais depressa chega a uma alma caridosa:
- Minha boa senhora, compreendo o seu zelo pela perfeita execução da sagrada liturgia desta igreja, mas estou aqui para participar. Na verdade pretendo assistir ao ritual para constatar a firme união entre este povo, a sua religião e o seu país, e para negar categoricamente e por esse meio as afirmações proferidas outrora pelos modernistas.
Tinha acabado a última frase quando senti uma forte paulada nas costas. Tentei levantar-me, mas outra paulada fez-me cair pelas escadas abaixo. Quase não tive tempo para sorrir. Lá em baixo, mal achei os óculos deparei-me com um homem largo de colarinho, carregando um cajado numa mão e um porta-chaves BMW na outra. Era o padre.
- Seus malandros! Não vos avisei já que não quero que me sujem a entrada da igreja? É por isso que vem cada vez menos gente! Que raio de linguagem é que zurrais? Pela milésima vez, a esmola é nas traseiras, está percebido? Eu perguntei se está percebido! - disse ele com tais gritos que me deixaram um zumbido no ouvido direito.
- Eu tentei ir a bem, sr. padre, mas não consegui! - disse a beata aproximando-se - Esta criatura fingiu que não me ouviu! Em vez de largar veio para aqui com disparates!
- Deixe estar, Dona Mariana Bernarda, obrigado, mas eu trato do assunto à minha maneira!
Enquanto levava pauladas aproveitei para observar a paisagem. As nuvens passavam altas, enormes e distantes como a Verdade. Alguns pombos voavam, outros jaziam espetados em pregos ferrugentos estrategicamente colocados no cimo da igreja. Já não conseguia avistar os homens andrajosos e doentes, tinham todos fugido. Algumas beatas olhavam para o relógio e agitavam-se, impacientes. Quando não olhavam para o relógio fitavam-me cheias de ódio, como se fosse eu a razão de um atraso fundamental nas suas vidas.
Apesar de eu já não me mexer o padre continuava a bater-me. "Não admira", pensei, "que o ícone máximo desta organização seja justamente um homem crucificado". Esse pensamento descansou-me. Tudo aquilo era provavelmente um ritual de iniciação que desconhecia, talvez para fazer de mim uma pessoa melhor, quem sabe um mártir, ou mesmo um salvador, através do espancamento. Sorri de felicidade e pratiquei meditação.
Finalmente, quando o padre terminou a sua função, desmaiei. A última coisa que vi foram as beatas a correr atrás do padre lançando-lhe palavras laudatórias, cada uma competindo para entrar primeiro que as outras na porta do templo católico.
Acordei aqui, onde tenho sido muito bem tratado. Perguntei qual era a extensão do meu martírio, mas ninguém me respondeu ainda. Parece, segundo sussurrou uma enfermeira, que neste sítio as informações são mais valiosas do que ouro, e que por isso tenho primeiro que esperar no meio do corredor até que passe o médico. Assim que ele vier deverei então esboçar uma expressão desgraçada para que ele, por piedade, me mostre o resultado de alguns exames e me relate mais ou menos o diagnóstico, num tempo máximo de dois minutos. É o que toda a gente faz. Segundo percebi, é assim em toda a parte e desde há muito tempo, ou seja, é um costume. E os costumes definem a cultura de um povo, são a sua identidade, todos os respeitam e se esforçam por preservá-los. Por isso, apesar de ainda não ter conseguido chegar a uma conclusão sobre a opinião dos modernistas, estou muito feliz por me encontrar no meio de um povo com tanta identidade.
"Esse nacionalismo inquinado de fé católica, esse patriotismo viciado de uma religião estranha!", ecoava no domingo um vizinho na escada do prédio, citando Fernando Pessoa, que foi um grande poeta e homem de vasta inteligência.
A religião é das coisas mais fundamentais para um povo, mesmo uma que ignore os Vedas, porque é um bastião de defesa para altos valores que de outra forma não sobreviveriam às modas.
Decidi por isso investigar. Vesti a minha fralda de cerimónia, o meu dhoti mais branquinho e dirigi-me à igreja mais próxima. "É verdade", pensava eu na minha sucessão de passos, "que Fernando Pessoa morreu em 1935, mas também é verdade que ouço toda a gente dizer que está sempre tudo na mesma, logo Portugal deve ser uma espécie de máquina do tempo e para viajar no princípio do século XX ou no final do século XIX basta sair de casa".
"Aposto comigo próprio um cubo de tofu em como Fernando Pessoa estava errado. Ele dizia que a verdadeira religião portuguesa era o sebastianismo, e não o catolicismo que a maioria dos populares idolatra. Pois eu aposto que toda a gente naquela igreja conhece melhor a Bíblia do que eu o Bhagavad-Gita, e melhor o seu país do que eu a Índia. Nacionalismo inquinado e estranho é o desse Pessoa e dos intelectuais da sua geração, que para serem diferentes do vulgo inventaram nacionalismos e religiões de escol, cada um com a sua versão. Qualquer país é o coração do povo, e não depósitos marginais e isolados de correntes elitistas."
Nestes pensamentos eu nadava quando cheguei ao templo católico. Ainda não era hora da missa, por isso decidi sentar-me nos degraus e esperar, sempre a sorrir apesar do sol abrasador que me queimava a face. Uma senhora mais velha que eu, acompanhada de um grupo de beatas, aproximou-se de mim e ofereceu-me uma esmola:
- Coitadinho! - disse ela às amigas - Tão magrinho! Toma e vai comer qualquer coisinha à pastelaria, vai!
Sorri-lhe. O espírito católico brilhava mais e emanava mais calor do que o sol na minha face. Era por aquilo que eu amava todas as religiões do mundo.
- Obrigado minha senhora. - disse eu tentando esboçar a melhor expressão que podia ter com os olhos a arder - Obrigado por perpetuar a Verdade no coração dos homens.
Não esperava a reacção que se seguiu. Ela deu-me discretamente um pontapé numa coxa e segredou-me para me ir embora imediatamente, porque a missa estava quase a começar e parecia mal estar ali a sujar as escadas da igreja. Reparei que na direcção que apontava o seu dedo hirto e determinado estava, talvez a 200 metros, um molho de mendigos andrajosos e doentes.
- Xô, desaparece! O que é que o senhor padre vai dizer? Vai comprar a merenda e sai daqui, está dito! - insistiu ela batendo o pé, como se expulsasse um cão, enquanto eu pensava no que fazer. Decidi contar-lhe gentilmente a verdade, que mais depressa chega a uma alma caridosa:
- Minha boa senhora, compreendo o seu zelo pela perfeita execução da sagrada liturgia desta igreja, mas estou aqui para participar. Na verdade pretendo assistir ao ritual para constatar a firme união entre este povo, a sua religião e o seu país, e para negar categoricamente e por esse meio as afirmações proferidas outrora pelos modernistas.
Tinha acabado a última frase quando senti uma forte paulada nas costas. Tentei levantar-me, mas outra paulada fez-me cair pelas escadas abaixo. Quase não tive tempo para sorrir. Lá em baixo, mal achei os óculos deparei-me com um homem largo de colarinho, carregando um cajado numa mão e um porta-chaves BMW na outra. Era o padre.
- Seus malandros! Não vos avisei já que não quero que me sujem a entrada da igreja? É por isso que vem cada vez menos gente! Que raio de linguagem é que zurrais? Pela milésima vez, a esmola é nas traseiras, está percebido? Eu perguntei se está percebido! - disse ele com tais gritos que me deixaram um zumbido no ouvido direito.
- Eu tentei ir a bem, sr. padre, mas não consegui! - disse a beata aproximando-se - Esta criatura fingiu que não me ouviu! Em vez de largar veio para aqui com disparates!
- Deixe estar, Dona Mariana Bernarda, obrigado, mas eu trato do assunto à minha maneira!
Enquanto levava pauladas aproveitei para observar a paisagem. As nuvens passavam altas, enormes e distantes como a Verdade. Alguns pombos voavam, outros jaziam espetados em pregos ferrugentos estrategicamente colocados no cimo da igreja. Já não conseguia avistar os homens andrajosos e doentes, tinham todos fugido. Algumas beatas olhavam para o relógio e agitavam-se, impacientes. Quando não olhavam para o relógio fitavam-me cheias de ódio, como se fosse eu a razão de um atraso fundamental nas suas vidas.
Apesar de eu já não me mexer o padre continuava a bater-me. "Não admira", pensei, "que o ícone máximo desta organização seja justamente um homem crucificado". Esse pensamento descansou-me. Tudo aquilo era provavelmente um ritual de iniciação que desconhecia, talvez para fazer de mim uma pessoa melhor, quem sabe um mártir, ou mesmo um salvador, através do espancamento. Sorri de felicidade e pratiquei meditação.
Finalmente, quando o padre terminou a sua função, desmaiei. A última coisa que vi foram as beatas a correr atrás do padre lançando-lhe palavras laudatórias, cada uma competindo para entrar primeiro que as outras na porta do templo católico.
Acordei aqui, onde tenho sido muito bem tratado. Perguntei qual era a extensão do meu martírio, mas ninguém me respondeu ainda. Parece, segundo sussurrou uma enfermeira, que neste sítio as informações são mais valiosas do que ouro, e que por isso tenho primeiro que esperar no meio do corredor até que passe o médico. Assim que ele vier deverei então esboçar uma expressão desgraçada para que ele, por piedade, me mostre o resultado de alguns exames e me relate mais ou menos o diagnóstico, num tempo máximo de dois minutos. É o que toda a gente faz. Segundo percebi, é assim em toda a parte e desde há muito tempo, ou seja, é um costume. E os costumes definem a cultura de um povo, são a sua identidade, todos os respeitam e se esforçam por preservá-los. Por isso, apesar de ainda não ter conseguido chegar a uma conclusão sobre a opinião dos modernistas, estou muito feliz por me encontrar no meio de um povo com tanta identidade.
Tuesday, August 08, 2006
"Primeiro eles ignoram-te, depois riem de ti, depois lutam contigo e por fim tu vences."
Fui eu que disse esta verdade, mas o último passo está longe.
Hoje voltei ao Rossio. O meu pensamento era claro e positivo. Cair é fácil, qualquer homem consegue cair. Mas erguer - isso exige a virtude dos melhores. Iria conquistar aliados e empreender uma revolução, nem que para isso tivesse de cair mil vezes.
Deparei-me desta vez com um homem que tinha tantas posses como eu, ou seja, quase nenhumas. Talvez até tivesse menos, porque eu tenho este computador, esta casa hipotecada e o meu dhoti. Era novo, estava no máximo na casa dos sessenta, cheirava pior que o comboio para Bombaim, não tinha pernas e pedia esmola a quem passava.
Atravessei-me à sua frente, empurrei o cartão com as esmolas para o lado e apresentei-me:
- Bom dia, meu bom homem. O meu nome é Ghandi, Jaime Ghandi, e sei o que tu buscas.
Os seus olhos fixaram-me, confusos, mas pouco depois a sua mão estendeu-se na minha direcção com a palma virada para cima.
- Ajude o pobrezinho doente e com fome! Ajude o pobrezinho doente e com fome! Nem que seja a moeda mais pequena feliz natal! Nem que seja a moeda mais pequena feliz natal!
Ali estava, reflecti para as minhas nódoas, um homem humilde e lutador, um homem com coração. O futuro do país. Pois que é um país senão o coração do seu povo? É verdade, estávamos no verão, longe do natal, mas o natal é uma farsa. O verdadeiro natal era o que aquele homem desejava, apenas a essência do homem, sem bens ou males supérfluos, um amor tão grande que transbordava como as fontes do Rossio, suficiente para inundar toda a nação.
A única coisa que tinha para dar, além da minha luz e da minha benção, eram algumas folhas de alface do jantar de ontem, muito saborosas. Depois de alguma busca encontrei-as intactas, mas quando tirava a mão das cuecas (eu guardo sempre a refeição nas cuecas, quando saio por muitas horas, porque o dhoti não tem bolsos), uma senhora chegou-se ao mendigo e esmolou-lhe cinquenta cêntimos.
Ele não gostou e arremessou um olhar furioso para a mulher.
- Não tem um ou dois euros? É só um ou dois euros, feliz natal. Ajude o pobrezinho doente e com fome.
Ela sorriu. Queria mesmo ajudá-lo.
- Se quiser vou ali à pastelaria e trago-lhe uma sandes e um galão, quer?
O mendigo começou a balançar no chão, ainda mais furioso.
- Não obrigado! Dois ou três euros, feliz natal! Não me diga que não tem três ou quatro euros? É natal! Faz diferença uma nota de cinco para o pobrezinho?
A mulher reflectiu alguns segundos. Não queria sair derrotada e fez-lhe uma oferta final.
- Pago-lhe uma refeição num restaurante à sua escolha, com bebida, sopa, sobremesa, tudo o que quiser.
- Mas que diferença lhe faz oito euros? - disse ele levantando a voz - Ajude o pobrezinho doente e com fome, sua cabra! - ordenou aos berros.
A situação ficou num impasse. Eu estava junto deles e podia fazer alguma coisa, mas depois do estalo que levei no outro dia não achei prudente ofertar a minha alface e voltei a pô-la onde estava. A mulher olhou para mim, esboçou um sorriso piedoso e deu-me os cinquenta cêntimos. Agradeci e guardei a moeda junto da alface, não por valer dinheiro, mas por valer compaixão. Estou em casa, agora, a olhar para ela. Algo brilha numa das faces: é o brilho da esperança.
Não, peço desculpa. É outra coisa.
Fui eu que disse esta verdade, mas o último passo está longe.
Hoje voltei ao Rossio. O meu pensamento era claro e positivo. Cair é fácil, qualquer homem consegue cair. Mas erguer - isso exige a virtude dos melhores. Iria conquistar aliados e empreender uma revolução, nem que para isso tivesse de cair mil vezes.
Deparei-me desta vez com um homem que tinha tantas posses como eu, ou seja, quase nenhumas. Talvez até tivesse menos, porque eu tenho este computador, esta casa hipotecada e o meu dhoti. Era novo, estava no máximo na casa dos sessenta, cheirava pior que o comboio para Bombaim, não tinha pernas e pedia esmola a quem passava.
Atravessei-me à sua frente, empurrei o cartão com as esmolas para o lado e apresentei-me:
- Bom dia, meu bom homem. O meu nome é Ghandi, Jaime Ghandi, e sei o que tu buscas.
Os seus olhos fixaram-me, confusos, mas pouco depois a sua mão estendeu-se na minha direcção com a palma virada para cima.
- Ajude o pobrezinho doente e com fome! Ajude o pobrezinho doente e com fome! Nem que seja a moeda mais pequena feliz natal! Nem que seja a moeda mais pequena feliz natal!
Ali estava, reflecti para as minhas nódoas, um homem humilde e lutador, um homem com coração. O futuro do país. Pois que é um país senão o coração do seu povo? É verdade, estávamos no verão, longe do natal, mas o natal é uma farsa. O verdadeiro natal era o que aquele homem desejava, apenas a essência do homem, sem bens ou males supérfluos, um amor tão grande que transbordava como as fontes do Rossio, suficiente para inundar toda a nação.
A única coisa que tinha para dar, além da minha luz e da minha benção, eram algumas folhas de alface do jantar de ontem, muito saborosas. Depois de alguma busca encontrei-as intactas, mas quando tirava a mão das cuecas (eu guardo sempre a refeição nas cuecas, quando saio por muitas horas, porque o dhoti não tem bolsos), uma senhora chegou-se ao mendigo e esmolou-lhe cinquenta cêntimos.
Ele não gostou e arremessou um olhar furioso para a mulher.
- Não tem um ou dois euros? É só um ou dois euros, feliz natal. Ajude o pobrezinho doente e com fome.
Ela sorriu. Queria mesmo ajudá-lo.
- Se quiser vou ali à pastelaria e trago-lhe uma sandes e um galão, quer?
O mendigo começou a balançar no chão, ainda mais furioso.
- Não obrigado! Dois ou três euros, feliz natal! Não me diga que não tem três ou quatro euros? É natal! Faz diferença uma nota de cinco para o pobrezinho?
A mulher reflectiu alguns segundos. Não queria sair derrotada e fez-lhe uma oferta final.
- Pago-lhe uma refeição num restaurante à sua escolha, com bebida, sopa, sobremesa, tudo o que quiser.
- Mas que diferença lhe faz oito euros? - disse ele levantando a voz - Ajude o pobrezinho doente e com fome, sua cabra! - ordenou aos berros.
A situação ficou num impasse. Eu estava junto deles e podia fazer alguma coisa, mas depois do estalo que levei no outro dia não achei prudente ofertar a minha alface e voltei a pô-la onde estava. A mulher olhou para mim, esboçou um sorriso piedoso e deu-me os cinquenta cêntimos. Agradeci e guardei a moeda junto da alface, não por valer dinheiro, mas por valer compaixão. Estou em casa, agora, a olhar para ela. Algo brilha numa das faces: é o brilho da esperança.
Não, peço desculpa. É outra coisa.
Monday, August 07, 2006
Quanto mais ando pelas ruas, mais me convenço que é necessária uma revolução pacífica. As pessoas vivem tão tristes e zangadas que parece que não vivem. Ao princípio, pensei que se atropelassem por haver uma corrida ao ouro, tão grande era a azáfama e tão carregados eram os semblantes. Ou então que o governo as obrigasse a correr e a competir como animais de sol a sol, como escravos. Mas não há ouro nem escravatura.
As pessoas correm e competem porque outras pessoas antes delas também corriam, e outras antes dessas, e outras ainda antes. Correm e competem, não por ambição ou obrigação, mas por imitação. Porque não sabem fazer outra coisa. Porque as suas mentes não são preparadas para fazer juízos, apenas para copiar juízos previamente elaborados por outros. É a era do "pré-cozinhado". Não fazem ideia do que conseguiriam se fossem meus discípulos. Em vez de usarem 10% do cérebro para a corrida sem meta e a competição violenta, aprenderiam a usar 90% para a plenitude imóvel e o auto-sacrifício pacífico.
E é isso que pretendo fazer. Desloquei-me ontem ao Rossio com esse intuito a semear todo o pomar da minha mente. Dirigi-me à entrada do Metro, um dos pontos mais nervosos da cidade. As pessoas corriam e atropelavam-se em modos tão selvagens que faziam os macacos da Índia parecerem educados membros da realeza. Decididamente tinha muito que labutar, e achei que a melhor estratégia seria primeiro reunir aliados.
A melhor hipótese era, de longe, um aparente conterrâneo que se vestia mais ou menos como eu e queimava muitas espécies de incenso nas escadas da estação. Muitas pessoas afastavam-se por causa do cheiro, e com razão: a selecção de incensos era pouco profissional. Enquanto uma mistura correcta pode elevar a alma ao mundo astral, uma errada pode fechá-la num contentor de peixe podre, ovos estragados e bufas de couve. Disse-lhe isso exactamente nestes termos, para lhe despertar o instinto universal da entreajuda. Respondeu:
- É vinte euros o conjunto.
Sorri. Não queria desistir depressa. Talvez a acção vencesse as palavras, pensei, e mostrei-lhe como se fazia: apagando o incenso de couve e o de cebola, acendendo o de caril e o de pimento, compus um "bouquet" perfeito que já não repelia as pessoas. Ele olhava para mim espantado enquanto eu trabalhava, aparentemente indeciso entre seguir o meu exemplo ou implorar-me para lhe ceder toda a minha sabedoria. Em vez disso levantou-se e deu-me um estalo nos óculos. Dado o meu frágil corpo, foi como se um tornado me levantasse do chão: desequilibrei-me e rebolei vários degraus, sem deixar de sorrir, até embater em dois ou três transeuntes. Agradeci-lhes e eles insultaram a minha mãe.
As pessoas correm e competem porque outras pessoas antes delas também corriam, e outras antes dessas, e outras ainda antes. Correm e competem, não por ambição ou obrigação, mas por imitação. Porque não sabem fazer outra coisa. Porque as suas mentes não são preparadas para fazer juízos, apenas para copiar juízos previamente elaborados por outros. É a era do "pré-cozinhado". Não fazem ideia do que conseguiriam se fossem meus discípulos. Em vez de usarem 10% do cérebro para a corrida sem meta e a competição violenta, aprenderiam a usar 90% para a plenitude imóvel e o auto-sacrifício pacífico.
E é isso que pretendo fazer. Desloquei-me ontem ao Rossio com esse intuito a semear todo o pomar da minha mente. Dirigi-me à entrada do Metro, um dos pontos mais nervosos da cidade. As pessoas corriam e atropelavam-se em modos tão selvagens que faziam os macacos da Índia parecerem educados membros da realeza. Decididamente tinha muito que labutar, e achei que a melhor estratégia seria primeiro reunir aliados.
A melhor hipótese era, de longe, um aparente conterrâneo que se vestia mais ou menos como eu e queimava muitas espécies de incenso nas escadas da estação. Muitas pessoas afastavam-se por causa do cheiro, e com razão: a selecção de incensos era pouco profissional. Enquanto uma mistura correcta pode elevar a alma ao mundo astral, uma errada pode fechá-la num contentor de peixe podre, ovos estragados e bufas de couve. Disse-lhe isso exactamente nestes termos, para lhe despertar o instinto universal da entreajuda. Respondeu:
- É vinte euros o conjunto.
Sorri. Não queria desistir depressa. Talvez a acção vencesse as palavras, pensei, e mostrei-lhe como se fazia: apagando o incenso de couve e o de cebola, acendendo o de caril e o de pimento, compus um "bouquet" perfeito que já não repelia as pessoas. Ele olhava para mim espantado enquanto eu trabalhava, aparentemente indeciso entre seguir o meu exemplo ou implorar-me para lhe ceder toda a minha sabedoria. Em vez disso levantou-se e deu-me um estalo nos óculos. Dado o meu frágil corpo, foi como se um tornado me levantasse do chão: desequilibrei-me e rebolei vários degraus, sem deixar de sorrir, até embater em dois ou três transeuntes. Agradeci-lhes e eles insultaram a minha mãe.
Tuesday, August 01, 2006
A minha demanda por um discípulo começou infrutífera.
Encontrei, sentando no vão do Cine Paraíso, um adolescente sorridente atrás de um enorme acordeão. Parecia muito enérgico mas abandonado - bom para asceta, como eu. Podia ser, porque não, pensei, o meu primeiro discípulo, ajudante na escrita da Verdade, aprendiz dedicado dos Vedas, alguém que até soubesse fazer uma boa cama de pregos. Para mim tal arte é inacessível, pois não posso pegar em armas e tanto martelos como pregos podem ser letais.
Inclinei-me cheio de bondade e perguntei-lhe o nome. A resposta revelou um rapaz pouco educado - um vaso vazio para eu encher, um bom sinal.
- Saúl, ó monhé! - gritou ele - Não me conheces?
- Não, meu bom rapaz. És conhecido?
- Ai! Vê lá se queres um borrifo destes! - e estendeu o dedo do meio na minha direcção, rindo à gargalhada.
Não tinha assistido a tanta rebeldia nem nas memórias recém-adquiridas sobre a independência indiana. Precisaria de muito tempo para domar um adolescente assim. Como não ganhava de forma nenhuma a sua simpatia, resolvi fazer-lhe uma proposta concreta e aliciante:
- Rapaz, o meu nome é Ghandi. Sou um grande líder espiritual, e posso transformar-te facilmente num líder ainda maior do que eu em trinta ou quarenta anos. Tudo o que tens a fazer é vir comigo e viver despojado de todos os bens, estudar e ler alto os Vedas oito horas por dia, rever as minhas obras, ter por princípio a verdade e o vegetarianismo, fabricar e manter duas camas de pregos, fazer voto de celibato e uns jejuns de vez em quando para purificar o corpo e o espírito. Que dizes?
Notei que o rapaz continuava a olhar para mim com o mesmo ar trocista, mas que estava a pensar. Coçava uma narina com o mesmo dedo que me estendera antes. Quando terminou apanhou um maço de cigarros caído num degrau, escreveu-lhe qualquer coisa, suspirou e deu-mo, revelando a existência de comunicação. Fiquei animado, até esperançoso. As minhas lentes brilharam de alegria só de imaginar um discípulo a sério. A minha mensagem fundamental para a humanidade teria continuação. O meu exemplo seria transmitido por várias gerações para bem da paz e da verdade.
Foi então que reparei no que estava escrito. Tenho aqui o maço, ainda, como recordação :
Encontrei, sentando no vão do Cine Paraíso, um adolescente sorridente atrás de um enorme acordeão. Parecia muito enérgico mas abandonado - bom para asceta, como eu. Podia ser, porque não, pensei, o meu primeiro discípulo, ajudante na escrita da Verdade, aprendiz dedicado dos Vedas, alguém que até soubesse fazer uma boa cama de pregos. Para mim tal arte é inacessível, pois não posso pegar em armas e tanto martelos como pregos podem ser letais.
Inclinei-me cheio de bondade e perguntei-lhe o nome. A resposta revelou um rapaz pouco educado - um vaso vazio para eu encher, um bom sinal.
- Saúl, ó monhé! - gritou ele - Não me conheces?
- Não, meu bom rapaz. És conhecido?
- Ai! Vê lá se queres um borrifo destes! - e estendeu o dedo do meio na minha direcção, rindo à gargalhada.
Não tinha assistido a tanta rebeldia nem nas memórias recém-adquiridas sobre a independência indiana. Precisaria de muito tempo para domar um adolescente assim. Como não ganhava de forma nenhuma a sua simpatia, resolvi fazer-lhe uma proposta concreta e aliciante:
- Rapaz, o meu nome é Ghandi. Sou um grande líder espiritual, e posso transformar-te facilmente num líder ainda maior do que eu em trinta ou quarenta anos. Tudo o que tens a fazer é vir comigo e viver despojado de todos os bens, estudar e ler alto os Vedas oito horas por dia, rever as minhas obras, ter por princípio a verdade e o vegetarianismo, fabricar e manter duas camas de pregos, fazer voto de celibato e uns jejuns de vez em quando para purificar o corpo e o espírito. Que dizes?
Notei que o rapaz continuava a olhar para mim com o mesmo ar trocista, mas que estava a pensar. Coçava uma narina com o mesmo dedo que me estendera antes. Quando terminou apanhou um maço de cigarros caído num degrau, escreveu-lhe qualquer coisa, suspirou e deu-mo, revelando a existência de comunicação. Fiquei animado, até esperançoso. As minhas lentes brilharam de alegria só de imaginar um discípulo a sério. A minha mensagem fundamental para a humanidade teria continuação. O meu exemplo seria transmitido por várias gerações para bem da paz e da verdade.
Foi então que reparei no que estava escrito. Tenho aqui o maço, ainda, como recordação :
«Com um bafo desses não há cá Ghandi para ninguém! Um bafo desses quer alho! Se tivesse um chavo mandava-te jogar com as bolas do bilhar; como não tenho, toma um autógrafo destes e vai jogar com as tuas! Pequeno Saúl»
Mesmo o mais optimista dos homens tem de reconhecer a derrota, se for sensato. Fui-me embora, não suficientemente depressa para deixar de o ouvir lamentar, para o seu acordeão, "há cada filósofo desses...". Pobre anacoreta sem educação nem vontade de a ter, pobre viciado no trocadilho incivil, aquele rapaz. Que desperdício de aptidão! E pobre de mim, que continuo a dormir sobre trapos, desconfortável e desconforme aos meus princípios.
Monday, July 31, 2006

Unindo o meu talento para manipulação de energias ao profundo vazio mental do nirvana, sinto-me ilimitado.
Os meus progressos são notáveis, tão completos que já comecei a escrever alguns livros. Terei de adoptar rapidamente um discípulo para que possa fazer a revisão do texto e uma ou outra emenda, dado que, como já aqui escrevi (julgo eu), o meu caminho espiritual não me permite ler livros - nem mesmo os que eu próprio escrevo.
Por vezes leio algumas palavras sem querer e tenho de me purificar a seguir, mortificando-me com mais algumas horas de fome. Mas o assunto desta missiva é superior a estes detalhes da minha nova existência.
Atentai bem na foto que apresento. O que é que mais se destaca? As nuvens e eu, é certo, e uma árvore lá ao fundo, mas atentai melhor, de mais perto. O que é realmente importante nesta imagem? Também eu tive de circular um pouco pelo Largo Camões para achar o mais elevado tesouro da cidade. São precisamente os pombos.
Desde tempos imemoriais os mais esclarecidos dos homens usam as aves para adivinhação. Homero, por exemplo, 27 séculos antes de mim descreveu como os gregos as usavam: observando o seu vôo, se era à direita ou à esquerda de um exército, decidiam se a sorte era ou não favorável.
Homero, descobri no Largo Camões, estava errado. Um turista inglês tirou-me esta foto nesse preciso momento e por delicadeza enviou-ma depois, por email, devidamente assinada. Tinha um nome invulgar, "Fucking Communist!". Se o Sr. Communist! visitar este blog, aqui lhe deixo os meus mais sinceros agradecimentos.
Ora bem, o que descobri foi muito simples: não é o vôo das aves a mensagem, e sim os excrementos. Atentando na forma, na textura, na cor e no sabor de uma poia de pombo pode-se com algum esforço ler o futuro. Os pombos são, qual Hermes, mensageiros alados, e as suas bostas mensagens do céu. Estão espalhadas por toda a parte, como se alguém rasgasse uma enciclopédia universal do futuro e atirasse os bocadinhos do cimo do Sheraton num dia de vento, mas são mensagens codificadas para só os eleitos terem acesso ao conteúdo.
A beleza desta descoberta emocionou-me tanto que me sentei imóvel durante cinco horas. Estou indeciso entre Borromância e Merdomância para nome desta nova ciência. Noto, ao escrever isto, um espasmo dos meus lábios a querer sorrir... É que eu não preciso ficar indeciso, posso provar já nas bostas a minha decisão, no futuro.
Esfregando-me nas paredes e no chão trouxe tantas quanto consegui para casa, coladas ao meu dhoti, e estou agora a decifrá-las uma por uma, analisando com a maior concentração. Até agora só apanhei mensagens inúteis, com números de lotaria e euromilhões, resultados da bolsa e o regresso de um tal D. Sebastião. Tenho agora de parar de escrever para analisar as restantes, enquanto o meu dhoti não fica completamente corroído pelo ácido.
Shanti para todos,
Jaime Mohandas Karamchand Pacheco Ghandi
Thursday, July 27, 2006
Estou cada vez mais aperfeiçoado na utilização de energias alternativas. Por força mental, consigo forçar as minhas células a absorver a energia solar, como fazem as plantas. Passei toda a manhã ao sol com resultados muito positivos: a fome diminuiu e os excrementos sairam esverdeados. Não creio que seja uma abundância de clorofila nos intestinos por ter ingerido todas as plantas do apartamento, porque as cozinhei antes.As fontes de informação são quase todas proibidas pelo sagrado brahmacharya. Tenho tido muita dificuldade em fazer progredir a minha sabedoria, mas estou a usar a criatividade. Não posso usar a Internet para além deste fundamental blog, nem a televisão, nem livros ou jornais. Mas os livros sagrados não dizem nada sobre o Trivial Pursuit que achei caído na parte de trás de uma prateleira. Com ele tenho alargado muito a minha sabedoria sobre o mundo vegetal.
O abacate é a fruta mais calórica do planeta, 167 KCal por cada 100g. Nenhuma espécie selvagem produz flores inteiramente negras. As orquídeas têm as sementes mais pequenas do mundo: são necessárias mais de 1.25 milhões de sementes para atingir o peso de um grama. A erva mais alta é o bambu, que pode chegar aos 130 pés de altura. O papel de arroz não é feito de arroz, e sim de umas árvores pequenas que há para os lados da Ilha Formosa. As flores que dependem das traças para a polinização são geralmente brancas ou amarelas, para se verem bem com pouca luz.
Tuesday, July 25, 2006
Hoje, depois das orações da alvorada, encontrei um vizinho meu ao pé dos contentores do lixo. Levava o lixo dele separado em saquinhos coloridos, e atirava-os ao acaso, um após outro, para os contentores coloridos, não acertando sempre as cores. Parecia orgulhoso, apesar de estar a fumar uma coisa malcheirosa. Quando me viu reconheceu-me, talvez por me ter visto ontem a sair do prédio, e apesar do meu aspecto cumprimentou-me:
- Bom dia vizinho! Como está? - disse-me ele sorridente e sempre politicamente correcto. Acenei-lhe e sorri-lhe de volta, com o meu sorriso simpático de Ghandi. A ausência de palavras pareceu perturbá-lo, porque insistiu em "meter conversa". Era um daqueles tipos artificialmente sociáveis, que nunca deixam a popularidade em risco apesar de terem um aspecto cigano:
- Então, também vem por o lixo de manhãzinha? Não há nada melhor do que respirar este ar fresco da manhã, não é verdade?
- Não vim por lixo nenhum, vizinho, vim só buscar o jornal.
Notei pela contorção de alguns músculos da face que estranhou o meu comportamento, mas esforçou-se por continuar a sorrir. Tinha um sorriso treinado.
- Então gosta de se manter actualizado, hã?
- Sempre, mas com a satya, perdão, a verdade, e como a verdade nunca muda eu vivo em paz. O jornal é só para limpar o rabo, porque sem dinheiro não me deixam obter papel higiénico ou guardanapos nas lojas.
O homem riu com força, assumindo que eu estava a brincar, e mudou subtilmente de tema, falando sempre com uma curiosa intimidade.
- Vi o senhor sair dali, onde morava o sr. Pacheco. Não sabia que o sr. Pacheco se tinha mudado. E olhe que eu tenho uma imobiliária! - gritou isto sob uma baforada de fumo, rindo ainda mais alto e dando-me uma palmada amiga nas costas que quase me desmontou os ossos frágeis - se o sr. estiver interessado, tenho casas que não imagina. Aqui, ali, acolá, em todo o lado! Tudo na moda! Azulejos do melhor que há, cortados à máquina, caríssimos! Soalhos de madeira maciça - faia, não carvalho, só do mais caro! Espelhos no hall do prédio nem pensar, não estão na moda!
No fim do discurso já me tratava por tu, como se fosse um amigo de infância, ou um irmão.
- Faço-te um preço especial, porque tu és uma pessoa humilde. Às vezes aparecem-me gajos convencidos, estás a ver, que até dá gosto enganar, mas tu és humilde e eu para ti faço um bom negócio! Vá, pensa lá nisso! Um grande abraço!
Deu-me um cartão e depois afastou-se. Era muito pequeno e duro, com umas arestas perigosas. Preferi o jornal.
- Bom dia vizinho! Como está? - disse-me ele sorridente e sempre politicamente correcto. Acenei-lhe e sorri-lhe de volta, com o meu sorriso simpático de Ghandi. A ausência de palavras pareceu perturbá-lo, porque insistiu em "meter conversa". Era um daqueles tipos artificialmente sociáveis, que nunca deixam a popularidade em risco apesar de terem um aspecto cigano:
- Então, também vem por o lixo de manhãzinha? Não há nada melhor do que respirar este ar fresco da manhã, não é verdade?
- Não vim por lixo nenhum, vizinho, vim só buscar o jornal.
Notei pela contorção de alguns músculos da face que estranhou o meu comportamento, mas esforçou-se por continuar a sorrir. Tinha um sorriso treinado.
- Então gosta de se manter actualizado, hã?
- Sempre, mas com a satya, perdão, a verdade, e como a verdade nunca muda eu vivo em paz. O jornal é só para limpar o rabo, porque sem dinheiro não me deixam obter papel higiénico ou guardanapos nas lojas.
O homem riu com força, assumindo que eu estava a brincar, e mudou subtilmente de tema, falando sempre com uma curiosa intimidade.
- Vi o senhor sair dali, onde morava o sr. Pacheco. Não sabia que o sr. Pacheco se tinha mudado. E olhe que eu tenho uma imobiliária! - gritou isto sob uma baforada de fumo, rindo ainda mais alto e dando-me uma palmada amiga nas costas que quase me desmontou os ossos frágeis - se o sr. estiver interessado, tenho casas que não imagina. Aqui, ali, acolá, em todo o lado! Tudo na moda! Azulejos do melhor que há, cortados à máquina, caríssimos! Soalhos de madeira maciça - faia, não carvalho, só do mais caro! Espelhos no hall do prédio nem pensar, não estão na moda!
No fim do discurso já me tratava por tu, como se fosse um amigo de infância, ou um irmão.
- Faço-te um preço especial, porque tu és uma pessoa humilde. Às vezes aparecem-me gajos convencidos, estás a ver, que até dá gosto enganar, mas tu és humilde e eu para ti faço um bom negócio! Vá, pensa lá nisso! Um grande abraço!
Deu-me um cartão e depois afastou-se. Era muito pequeno e duro, com umas arestas perigosas. Preferi o jornal.
Monday, July 24, 2006
Os grandes homens são conjunturais. Dependem do seu tempo e do seu espaço. O que seria de Napoleão sem a Revolução Francesa, de Hitler sem a opressão da Alemanha pelos vencedores da Primeira Guerra e dos progressos da Ariosofia, de Jesus sem a ocupação romana da Judeia e as profecias messiânicas do Velho Testamento? Não teriam chegado mais longe do que um trabalhador dos CTT. Também Ghandi não teria seguidores e um lugar na História se a Índia não precisasse de ser libertada dos ingleses.
Mas Eu-Ghandi, a minha acidental personalidade, não vive num país grande esfomeado de liberdade, e sim num pseudo-país pequeno necessitado de uma ditadura. Que posso fazer eu aqui enquanto Ghandi, para além de deambular pelas ruas e ser tratado como um palhaço? É a velha história da boa semente que se atira ao acaso e que se desenvolve numa árvore imensa, se calhar em terra fértil, ou em nada, se calhar numa pedra. Eu calhei em Portugal, que é um rochedo salgado. Ainda por cima com ar de indiano e sem passaporte, dinheiro ou Visa. A única coisa que restou da metamorfose foi este computador e algumas flores.
Por outro lado, quantas pessoas poderiam passar pela experiência esquizofrénica de ser Ghandi? Sinto a nostalgia de descobrir coisas com pêndulos, mas em simultâneo uma energia nova, uma força que vem de dentro, que me enche as entranhas e está prestes a explodir. Não sei como comendo tão pouco pode um organismo produzir tantos hidrocarbonetos.
Mas Eu-Ghandi, a minha acidental personalidade, não vive num país grande esfomeado de liberdade, e sim num pseudo-país pequeno necessitado de uma ditadura. Que posso fazer eu aqui enquanto Ghandi, para além de deambular pelas ruas e ser tratado como um palhaço? É a velha história da boa semente que se atira ao acaso e que se desenvolve numa árvore imensa, se calhar em terra fértil, ou em nada, se calhar numa pedra. Eu calhei em Portugal, que é um rochedo salgado. Ainda por cima com ar de indiano e sem passaporte, dinheiro ou Visa. A única coisa que restou da metamorfose foi este computador e algumas flores.
Por outro lado, quantas pessoas poderiam passar pela experiência esquizofrénica de ser Ghandi? Sinto a nostalgia de descobrir coisas com pêndulos, mas em simultâneo uma energia nova, uma força que vem de dentro, que me enche as entranhas e está prestes a explodir. Não sei como comendo tão pouco pode um organismo produzir tantos hidrocarbonetos.
Esta é a minha aparência passados três dias, no regresso de ir buscar o jornal ao lixo. Estou mais magro, mais ridículo. Com sono. Apetece-me andar sem rumo sob o calor estival, os meus pés descalços a pisar passeios escaldantes, o estômago a espremer-se em protesto do prolongado jejum.Sou feliz e vou fazer transbordar essa felicidade para cima dos pobres. Vou ensinar-lhes a arte de ser feliz com nada. Vou ensinar-lhes a beleza e a pureza das plantas, como se arrancam e como se cozinham. Vou fazer um banquete na Avenida da Liberdade.
Vou-me esquecer que li Antístenes e sobre a vida de Diógenes de Sínope, que habitava um barril, Simão estilita, que vivia numa coluna, Jesus Cristo, o profeta, e S. Francisco de Assis, o vagabundo. Sinto-me mais inspirado para pregar a pobreza que todos eles juntos. Sou o mais pobre, o mais fraco e o mais humilde dos homens.
Ainda não passou uma semana e já quase não penso que tinha poderes energéticos, que era perito em radiestesia, contratado para detectar detectar poços petrolíferos no meio dos oceanos com um pêndulo e um mapa. Quase não me lembro do torpe feitiço que me lançaram, e da necessidade vital de libertar a minha alma desta prisão impregnada de caril chamada Ghandi. Vou continuar a escrever para me lembrar. Vou reflectir até me cairem os últimos cinco fios de cabelo, e vou vencer, porque a diferença entre mim e todos os estóicos é que eu sou estóico.
Sunday, July 23, 2006
Por vezes tenho recordações parvas da minha vida anterior. Hoje acordei com vontade de comer nachos.
Sem pensar, dirigi-me ao hipermercado, peguei em três pacotes de nachos e fui para a caixa. Quando chegou a hora de pagar não tinha dinheiro... Não valia a pena chafurdar no dhoti, Ghandi não usa dinheiro.
A fila prolongava-se e a senhora da caixa parecia impaciente. Mas não me apetecia deixar ali os nachos...
"Sou Ghandi" - disse-lhe, certo de que a convenceria - "se me deixar levar estes nachos sem pagar permito-lhe que me siga e se junte ao swaraj, o movimento pela libertação da Índia".
Ficou a olhar para mim, depois suspirou. Tentei outra abordagem, desta vez segredando-lhe ao ouvido para ninguém perceber:
"Sou da casta vaishya, uma casta abastada e influente. Seria uma desonra para este estabelecimento não me conceder estes pacotes de nachos, segundo o protocolo da hospitalidade".
A mulher não deve ter gostado do meu hálito a caril e pegou no telefone para chamar o segurança. Fiquei com uns escassos segundos para usar o último e derradeiro trunfo.
"Estou prestes a receber o Nobel da Paz. Sabe quanto é isso? O Nobel. Muitos pacotes de nachos."
Nessa altura senti dois gigantes agarrarem nos meus braços esqueléticos e arrastarem-me para longe dos nachos. Irritei-me profundamente, tão profundamente que quase pensei obscenidades. Mas Ghandi não pensa obscenidades. Ghandi faz greve de fome. Enquanto me arrastavam, ameacei-os com um jejum de duas semanas. Fui posto na rua.
Sem pensar, dirigi-me ao hipermercado, peguei em três pacotes de nachos e fui para a caixa. Quando chegou a hora de pagar não tinha dinheiro... Não valia a pena chafurdar no dhoti, Ghandi não usa dinheiro.
A fila prolongava-se e a senhora da caixa parecia impaciente. Mas não me apetecia deixar ali os nachos...
"Sou Ghandi" - disse-lhe, certo de que a convenceria - "se me deixar levar estes nachos sem pagar permito-lhe que me siga e se junte ao swaraj, o movimento pela libertação da Índia".
Ficou a olhar para mim, depois suspirou. Tentei outra abordagem, desta vez segredando-lhe ao ouvido para ninguém perceber:
"Sou da casta vaishya, uma casta abastada e influente. Seria uma desonra para este estabelecimento não me conceder estes pacotes de nachos, segundo o protocolo da hospitalidade".
A mulher não deve ter gostado do meu hálito a caril e pegou no telefone para chamar o segurança. Fiquei com uns escassos segundos para usar o último e derradeiro trunfo.
"Estou prestes a receber o Nobel da Paz. Sabe quanto é isso? O Nobel. Muitos pacotes de nachos."
Nessa altura senti dois gigantes agarrarem nos meus braços esqueléticos e arrastarem-me para longe dos nachos. Irritei-me profundamente, tão profundamente que quase pensei obscenidades. Mas Ghandi não pensa obscenidades. Ghandi faz greve de fome. Enquanto me arrastavam, ameacei-os com um jejum de duas semanas. Fui posto na rua.
Saturday, July 22, 2006
Achei numa dobra do meu dhoti, ontem, um voucher para usar na piscina do Hotel Inglaterra, no Estoril. Perto de sítios ricos há sempre pobres, e eu precisava de pobres para difundir a minha mensagem. Além disso o nome do hotel parecia-me apropriado para começar uma swaraj.
Como não podia conduzir descalço fui de comboio. As pessoas olhavam para mim e faziam comentários sobre o lençol que tinha enrolado. "Não é um lençol", expliquei-lhes pacientemente, "é um dhoti". Algumas fugiam. Senti uma humilhação dos pés aos óculos. Ser Ghandi não era a maravilha que muitos anunciavam. Em vez de me sentir prestes a receber o Nobel da Paz, sentia-me prestes a ser ostracizado por mendicidade ou foleirice.
Consegui fugir ao revisor andando de carruagem em carruagem, até sair no Estoril. Quando apresentei o voucher na recepção do hotel apressei-me a informar que não o tinha roubado. Roubar era contra os meus princípios. Eu nem devia precisar de voucher, porque era um líder espiritual. "Satya, entendem?". E se recusassem a minha entrada fazia greve de fome, ou pior, comia-lhes as plantas que tinham à entrada.
- Concerteza. Tem calção de banho? - perguntaram amavelmente.
- Não, - respondi - só esta fralda enrolada no cu.
Não me deixaram frequentar a piscina e expulsaram-me, como a todos os outros pobres que não encontrei. É horrível ser Ghandi, principalmente com este sol. O calor afasta os pobres, e sem pobres nem o Bhagavad Gita me vai valer. Começo mal.
Como não podia conduzir descalço fui de comboio. As pessoas olhavam para mim e faziam comentários sobre o lençol que tinha enrolado. "Não é um lençol", expliquei-lhes pacientemente, "é um dhoti". Algumas fugiam. Senti uma humilhação dos pés aos óculos. Ser Ghandi não era a maravilha que muitos anunciavam. Em vez de me sentir prestes a receber o Nobel da Paz, sentia-me prestes a ser ostracizado por mendicidade ou foleirice.
Consegui fugir ao revisor andando de carruagem em carruagem, até sair no Estoril. Quando apresentei o voucher na recepção do hotel apressei-me a informar que não o tinha roubado. Roubar era contra os meus princípios. Eu nem devia precisar de voucher, porque era um líder espiritual. "Satya, entendem?". E se recusassem a minha entrada fazia greve de fome, ou pior, comia-lhes as plantas que tinham à entrada.
- Concerteza. Tem calção de banho? - perguntaram amavelmente.
- Não, - respondi - só esta fralda enrolada no cu.
Não me deixaram frequentar a piscina e expulsaram-me, como a todos os outros pobres que não encontrei. É horrível ser Ghandi, principalmente com este sol. O calor afasta os pobres, e sem pobres nem o Bhagavad Gita me vai valer. Começo mal.
O mundo não me conhece ainda, mas vai conhecer. O meu nome é Jaime Pacheco e sou um especialista na captação e transformação de energias ocultas. Tenho uma vasta experiência, nomeadamente no continente africano, Escócia e Estados Unidos. Infelizmente, tanta experiência não foi suficiente para não cometer um grave erro.
Eu dia eu estava a ler a "Metamorfose" de Kafka, e achei muito interessante a transformação numa espécie de barata gigante. Gosto de baratas. São bichos robustos e determinados. Por isso decidi provocar em mim uma metamorfose semelhante, controlando as energias.
Preparei-me durante dois meses e tentei, mas algo de muito errado aconteceu. Na manhã seguinte, quando acordei, estava transformado no Ghandi. Não sei onde falhei. Talvez as misteriosas correntes telúricas que atravessam Portugal me tenham perturbado, mas o meu instinto diz que foi um feitiço lançado por uma pessoa pequena.
O objectivo da minha vida é descobrir quem lançou esse feitiço e como o desfazer. E enquanto o faço, quero deixar este blog como relato da minha extraordinária experiência.
Eu dia eu estava a ler a "Metamorfose" de Kafka, e achei muito interessante a transformação numa espécie de barata gigante. Gosto de baratas. São bichos robustos e determinados. Por isso decidi provocar em mim uma metamorfose semelhante, controlando as energias.
Preparei-me durante dois meses e tentei, mas algo de muito errado aconteceu. Na manhã seguinte, quando acordei, estava transformado no Ghandi. Não sei onde falhei. Talvez as misteriosas correntes telúricas que atravessam Portugal me tenham perturbado, mas o meu instinto diz que foi um feitiço lançado por uma pessoa pequena.
O objectivo da minha vida é descobrir quem lançou esse feitiço e como o desfazer. E enquanto o faço, quero deixar este blog como relato da minha extraordinária experiência.
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