Hoje, depois das orações da alvorada, encontrei um vizinho meu ao pé dos contentores do lixo. Levava o lixo dele separado em saquinhos coloridos, e atirava-os ao acaso, um após outro, para os contentores coloridos, não acertando sempre as cores. Parecia orgulhoso, apesar de estar a fumar uma coisa malcheirosa. Quando me viu reconheceu-me, talvez por me ter visto ontem a sair do prédio, e apesar do meu aspecto cumprimentou-me:
- Bom dia vizinho! Como está? - disse-me ele sorridente e sempre politicamente correcto. Acenei-lhe e sorri-lhe de volta, com o meu sorriso simpático de Ghandi. A ausência de palavras pareceu perturbá-lo, porque insistiu em "meter conversa". Era um daqueles tipos artificialmente sociáveis, que nunca deixam a popularidade em risco apesar de terem um aspecto cigano:
- Então, também vem por o lixo de manhãzinha? Não há nada melhor do que respirar este ar fresco da manhã, não é verdade?
- Não vim por lixo nenhum, vizinho, vim só buscar o jornal.
Notei pela contorção de alguns músculos da face que estranhou o meu comportamento, mas esforçou-se por continuar a sorrir. Tinha um sorriso treinado.
- Então gosta de se manter actualizado, hã?
- Sempre, mas com a satya, perdão, a verdade, e como a verdade nunca muda eu vivo em paz. O jornal é só para limpar o rabo, porque sem dinheiro não me deixam obter papel higiénico ou guardanapos nas lojas.
O homem riu com força, assumindo que eu estava a brincar, e mudou subtilmente de tema, falando sempre com uma curiosa intimidade.
- Vi o senhor sair dali, onde morava o sr. Pacheco. Não sabia que o sr. Pacheco se tinha mudado. E olhe que eu tenho uma imobiliária! - gritou isto sob uma baforada de fumo, rindo ainda mais alto e dando-me uma palmada amiga nas costas que quase me desmontou os ossos frágeis - se o sr. estiver interessado, tenho casas que não imagina. Aqui, ali, acolá, em todo o lado! Tudo na moda! Azulejos do melhor que há, cortados à máquina, caríssimos! Soalhos de madeira maciça - faia, não carvalho, só do mais caro! Espelhos no hall do prédio nem pensar, não estão na moda!
No fim do discurso já me tratava por tu, como se fosse um amigo de infância, ou um irmão.
- Faço-te um preço especial, porque tu és uma pessoa humilde. Às vezes aparecem-me gajos convencidos, estás a ver, que até dá gosto enganar, mas tu és humilde e eu para ti faço um bom negócio! Vá, pensa lá nisso! Um grande abraço!
Deu-me um cartão e depois afastou-se. Era muito pequeno e duro, com umas arestas perigosas. Preferi o jornal.
Tuesday, July 25, 2006
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1 comment:
Olha, era o Cangas!!!! Que nojo, logo de manhã!!!!
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