Não esqueçais as marinhas creaturas

Monday, July 24, 2006

Esta é a minha aparência passados três dias, no regresso de ir buscar o jornal ao lixo. Estou mais magro, mais ridículo. Com sono. Apetece-me andar sem rumo sob o calor estival, os meus pés descalços a pisar passeios escaldantes, o estômago a espremer-se em protesto do prolongado jejum.

Sou feliz e vou fazer transbordar essa felicidade para cima dos pobres. Vou ensinar-lhes a arte de ser feliz com nada. Vou ensinar-lhes a beleza e a pureza das plantas, como se arrancam e como se cozinham. Vou fazer um banquete na Avenida da Liberdade.

Vou-me esquecer que li Antístenes e sobre a vida de Diógenes de Sínope, que habitava um barril, Simão estilita, que vivia numa coluna, Jesus Cristo, o profeta, e S. Francisco de Assis, o vagabundo. Sinto-me mais inspirado para pregar a pobreza que todos eles juntos. Sou o mais pobre, o mais fraco e o mais humilde dos homens.

Ainda não passou uma semana e já quase não penso que tinha poderes energéticos, que era perito em radiestesia, contratado para detectar detectar poços petrolíferos no meio dos oceanos com um pêndulo e um mapa. Quase não me lembro do torpe feitiço que me lançaram, e da necessidade vital de libertar a minha alma desta prisão impregnada de caril chamada Ghandi. Vou continuar a escrever para me lembrar. Vou reflectir até me cairem os últimos cinco fios de cabelo, e vou vencer, porque a diferença entre mim e todos os estóicos é que eu sou estóico.

2 comments:

Brisa said...

Com tanta magreza ainda estás vivo???

Jaime Mohandas Karamchand Pacheco Ghandi said...

Magro e vivo como as plantas. Eu desenvolvi a capacidade de fazer a fotossíntese, pelo que consigo sobreviver passando algumas horas ao sol por dia.

No inverno será mais difícil, terei de passar muitas horas em frente a uma televisão com o brilho e o contraste no máximo.