Depois de uma semana de internamento não consegui saber que males tinha o meu corpo, mas consegui recuperar parcialmente e sair. Ouvi dizer que tinham falta de camas e por isso me dispensavam mais cedo. Fiquei contente por ceder a minha cama a alguém mais desfavorecido do que eu. Apenas me deram uma ordem: que me apresentasse no centro de saúde da minha zona para tirar os pontos.
Foi assim que descobri a ciência de "tirar os pontos", uma ciência tão aperfeiçoada neste país que é fechada atrás de inúmeras portas e de um enorme labirinto, como um tesouro real.
Comecei por achar o centro de saúde perguntando a várias pessoas onde era. Entrei, era um sítio simpático, sem ninguém àquela hora, um bom espaço para meditação. Dirigi-me ao senhor da recepção.
- Boa tarde, senhor! Venho tirar os pontos seguindo as instruções do bom hospital de São José.
- Tem senha? - disse ele sem levantar os olhos.
- Não tenho senhor.
- Sem senha não o posso atender.
Descobri onde se tiravam as senhas, e tirei o 97. O mostrador indicava que tinha de esperar 6 números, mas não estava ninguém na sala. Provavelmente as pessoas já tinham desistido, pensei. Por 3, 4 ou 5 números, as pessoas desistiam. Seria assim tão fraca a paciência? Não podia ser, as pessoas deviam ter tido alguma coisa urgente para fazer, ou um miúdo, na brincadeira, atirara uma série de senhas para o lixo. A juventude, ah, saúde de não saber nada... Sorri e esperei.
Quinze minutos depois ainda esperava e ninguém aparecia. Incluindo na recepção. O senhor tinha ido tomar um café. Fiz meditação. Cinco minutos depois fui interrompido pelo grunhido estridente de um elefante indiano em fúria. Olhei, assustado, em redor, à procura da manada, mas descobri que a fonte era apenas uma coluna de som em mau estado que servia possivelmente para acordar os mais sonolentos na sala de espera. Os números avançaram uma unidade, para o 92. Era suspeito. Na recepção o senhor já lá estava outra vez, olhando-me fixamente, mas mais ninguém.
Os números avançaram rápido - 93, 94... até ao 97. Sorri e levantei-me. Era finalmente a minha vez. Mas os números não paravam - 98, 99... Cheguei ao "guichet" e reparei que o senhor estava agressivo.
- Não me ouviu a chamá-lo?
- Não, senhor - sorri-lhe, associando de repente o som estridente que ouvira ao seu real significado - pensei que fosse um elefante indiano em fúria.
- Está a gozar comigo? Eu já o chamei! Tem a senha?
- Tenho sim, senhor. - E dei-lhe a senha 97.
- 97? Está a gozar comigo! Isto já vai na 100! Como é que quer que o atenda se não tiver a 100?
Fui outra vez à máquina das senhas, tirei a 100 e entreguei-lha.
- O que é que quer?
- Venho tirar os pontos seguindo as instruções do bom hospital de São José.
- Qual é o seu médico de família?
- Não tenho.
- Não tem? Então não posso fazer nada. Tem de ter médico de família.
- Está bem senhor. Obtenha-me um médico de família, por favor.
- Cartão do utente?
- Não tenho.
- Não tem cartão do utente? - a voz do homem denotava uma irritação crescente. - Tem que pedir um!
- Onde?
- No guichet E.
- Mas não está lá ninguém, senhor.
- Guichet E. Tire a senha que diz "guichet E" - manteve, e não olhou mais para mim.
Fui tirar a senha. Desta vez era o número a seguir. O centro estava vazio. Só tive de esperar mais 10 minutos até à minha vez. No guichet E estava o mesmo homem que me atendera. Ele estava em todos os guichets, zelando sozinho pela ordem da recepção.
- Tem a senha?
- Está aqui, senhor.
- O que é que quer?
- Almejo obter um cartão de utente, de forma a ser beneficiado com um médico de família que me possa tirar os pontos seguindo as instruções do bom hospital de São José.
- Bilhete de identidade.
Ainda tinha comigo o bilhete da minha antiga identidade, e achando que servia dei-lho.
- Muito bem, sr. Jaime Pacheco. Ainda não possuirmos as tecnologias avançadas dos clubes de vídeo, que permitem fazer cartões em minutos, mas também não estamos mal. O seu cartão do utente estará pronto daqui a um ano.
- Senhor, só poderei tirar os pontos daqui a um ano?
- Não me interrompa que eu também não o interrompi. Entretanto tem aqui esta guia de substituição que pode apresentar em vez do cartão. Atribui-lhe o dr. M como médico de família, mas em carácter provisório, porque nem sempre ele aceita pacientes. Vai ter que falar com ele e pedir-lhe para ser o seu médico, só então lhe poderei validar a guia e marcar uma consulta. Boa tarde, próximo.
- Boa tarde senhor, muito obrigado! Onde poderei falar com o dr. M?
As minhas perguntas, notei, começavam a ser inconvenientes. O homem parecia estar a fazer um último esforço para não me esmurrar.
- Entre na última porta deste corredor e espere à porta do consultório. Próximo!
Dirigi-me à porta assinalada com uma placa a dizer "Dr. M", e esperei três horas. Findo esse tempo, um segurança veio avisar-me que o centro estava a fechar, e que tinha de sair.
- Mas tenho de falar com o dr. M, senhor, para que seja validada a guia que me permitirá marcar uma consulta para o meu médico de família, que me tirará os pontos seguindo as instruções do bom hospital de São José.
- O dr. M está de férias. - disse-me ele com maus modos e o dobro da minha altura - Agora ponha-se daqui para fora.
Tive de ir. Mas tinha conseguido alguma coisa. Tinha-me aproximado de uma solução e sentia-me feliz por pertencer a um sistema tão organizado, que tanta atenção dispensa à saúde, criando novelos de regras para que tudo funcione sem excepções. Voltei ao centro nos dias que se seguiram, esperando várias horas pelo dr. M. Num dia ele estava em greve, noutro em reunião, noutro de baixa, e depois entrou em férias outra vez. Para a recepção, mesmo para os computadores do centro, a vida do dr. M era incógnita e por isso, em nome da discrição, mandavam-me sempre esperar à porta, o que eu fiz durante duas semanas com alegria e determinação.
Um dia consegui. Uma médica nova, a dra. I, que partilhava o consultório com o dr. M tropeçou em mim e tanto se apiedou com a minha situação que aceitou, pelo dr., a minha inscrição. A minha guia de substituição foi finalmente validada e pude marcar uma consulta para o mais cedo possível, que era dali a dois meses.
Dois meses depois fui à minha consulta. Dirigi-me à recepção e deram-me uma folha, sem contudo me dizerem que era preciso colocá-la numa caixinha de madeira à porta do consultório. Segundo descobri mais tarde, toda a comunicação entre a recepção do centro e os médicos é feita pelos próprios pacientes, e não por computadores, por uma questão de humanidade.
Esperei poucas horas com o papel na mão até que por sorte o médico saiu para beber um café e reparou em mim. Perguntou se eu não era o "Jaime Pacheco" que tinha consulta marcada. Disse-lhe com um sorriso que sim, era eu mesmo, ainda que tivesse outro nome, e mostrei-lhe o papel.
- Então não sabe que isso se põe ali à porta do consultório? Toda a gente sabe isso. Ena, grande infecção tem aí... Não cuide disso não! Bom, tenho um compromisso agora há hora do almoço, se quiser pode passar cá à tarde que faço um jeitinho e atendo-o...
À tarde, e por grande favor, de que ainda estou reconhecido, pude finalmente ter a consulta com o dr. M.
- Então diga lá - disse ele, muito simpático.
- Tenho aqui estes pontos para tirar.
- Esses pontos... deixe lá ver. Esses pontos já estão infectados, podres seria o termo técnico. É capaz de doer. Não sabe que não se pode esperar meses por uma coisa dessas?
Sorri. Ia começar a falar quando ele me interrompeu:
- Infelizmente não os posso tirar. Esse trabalho é feito pelas enfermeiras. Dirija-se à enfermaria. Hoje já fechou e amanhã há greve outra vez, tente depois do fim-de-semana. Próximo.
Pareceu-me excelente. Mais quatro dias e o meu problema estaria resolvido. Dei uns passos na direcção da saída e perdi os sentidos. Quando acordei estava num sítio familiar: o bom hospital de São José. Estando a enfermaria fechada, e os médicos interditados de tirar pontos, tinham-me levado de ambulância para o hospital outra vez. Sinto-me muito melhor. Já não tenho os pontos, apenas a infecção, mas ouvi dizer no corredor que tenho boas hipóteses de sobreviver.
Tuesday, September 12, 2006
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