Escrevo este texto a partir de um convento do século XVI, outrora chamado de Santo Antão e habitado pela Companhia de Jesus, com excelente vista para o rio. Ou seja, escrevo-vos do hospital de S. José, onde estou internado há quatro dias e muito feliz. Um bom homem na cama vizinha, que está de momento a lutar com a morte premindo em desespero o botão que chama as enfermeiras, desde há meia hora, emprestou-me um pocket pc que me permite publicar a minha nova aventura, que começa assim:
"Esse nacionalismo inquinado de fé católica, esse patriotismo viciado de uma religião estranha!", ecoava no domingo um vizinho na escada do prédio, citando Fernando Pessoa, que foi um grande poeta e homem de vasta inteligência.
A religião é das coisas mais fundamentais para um povo, mesmo uma que ignore os Vedas, porque é um bastião de defesa para altos valores que de outra forma não sobreviveriam às modas.
Decidi por isso investigar. Vesti a minha fralda de cerimónia, o meu dhoti mais branquinho e dirigi-me à igreja mais próxima. "É verdade", pensava eu na minha sucessão de passos, "que Fernando Pessoa morreu em 1935, mas também é verdade que ouço toda a gente dizer que está sempre tudo na mesma, logo Portugal deve ser uma espécie de máquina do tempo e para viajar no princípio do século XX ou no final do século XIX basta sair de casa".
"Aposto comigo próprio um cubo de tofu em como Fernando Pessoa estava errado. Ele dizia que a verdadeira religião portuguesa era o sebastianismo, e não o catolicismo que a maioria dos populares idolatra. Pois eu aposto que toda a gente naquela igreja conhece melhor a Bíblia do que eu o Bhagavad-Gita, e melhor o seu país do que eu a Índia. Nacionalismo inquinado e estranho é o desse Pessoa e dos intelectuais da sua geração, que para serem diferentes do vulgo inventaram nacionalismos e religiões de escol, cada um com a sua versão. Qualquer país é o coração do povo, e não depósitos marginais e isolados de correntes elitistas."
Nestes pensamentos eu nadava quando cheguei ao templo católico. Ainda não era hora da missa, por isso decidi sentar-me nos degraus e esperar, sempre a sorrir apesar do sol abrasador que me queimava a face. Uma senhora mais velha que eu, acompanhada de um grupo de beatas, aproximou-se de mim e ofereceu-me uma esmola:
- Coitadinho! - disse ela às amigas - Tão magrinho! Toma e vai comer qualquer coisinha à pastelaria, vai!
Sorri-lhe. O espírito católico brilhava mais e emanava mais calor do que o sol na minha face. Era por aquilo que eu amava todas as religiões do mundo.
- Obrigado minha senhora. - disse eu tentando esboçar a melhor expressão que podia ter com os olhos a arder - Obrigado por perpetuar a Verdade no coração dos homens.
Não esperava a reacção que se seguiu. Ela deu-me discretamente um pontapé numa coxa e segredou-me para me ir embora imediatamente, porque a missa estava quase a começar e parecia mal estar ali a sujar as escadas da igreja. Reparei que na direcção que apontava o seu dedo hirto e determinado estava, talvez a 200 metros, um molho de mendigos andrajosos e doentes.
- Xô, desaparece! O que é que o senhor padre vai dizer? Vai comprar a merenda e sai daqui, está dito! - insistiu ela batendo o pé, como se expulsasse um cão, enquanto eu pensava no que fazer. Decidi contar-lhe gentilmente a verdade, que mais depressa chega a uma alma caridosa:
- Minha boa senhora, compreendo o seu zelo pela perfeita execução da sagrada liturgia desta igreja, mas estou aqui para participar. Na verdade pretendo assistir ao ritual para constatar a firme união entre este povo, a sua religião e o seu país, e para negar categoricamente e por esse meio as afirmações proferidas outrora pelos modernistas.
Tinha acabado a última frase quando senti uma forte paulada nas costas. Tentei levantar-me, mas outra paulada fez-me cair pelas escadas abaixo. Quase não tive tempo para sorrir. Lá em baixo, mal achei os óculos deparei-me com um homem largo de colarinho, carregando um cajado numa mão e um porta-chaves BMW na outra. Era o padre.
- Seus malandros! Não vos avisei já que não quero que me sujem a entrada da igreja? É por isso que vem cada vez menos gente! Que raio de linguagem é que zurrais? Pela milésima vez, a esmola é nas traseiras, está percebido? Eu perguntei se está percebido! - disse ele com tais gritos que me deixaram um zumbido no ouvido direito.
- Eu tentei ir a bem, sr. padre, mas não consegui! - disse a beata aproximando-se - Esta criatura fingiu que não me ouviu! Em vez de largar veio para aqui com disparates!
- Deixe estar, Dona Mariana Bernarda, obrigado, mas eu trato do assunto à minha maneira!
Enquanto levava pauladas aproveitei para observar a paisagem. As nuvens passavam altas, enormes e distantes como a Verdade. Alguns pombos voavam, outros jaziam espetados em pregos ferrugentos estrategicamente colocados no cimo da igreja. Já não conseguia avistar os homens andrajosos e doentes, tinham todos fugido. Algumas beatas olhavam para o relógio e agitavam-se, impacientes. Quando não olhavam para o relógio fitavam-me cheias de ódio, como se fosse eu a razão de um atraso fundamental nas suas vidas.
Apesar de eu já não me mexer o padre continuava a bater-me. "Não admira", pensei, "que o ícone máximo desta organização seja justamente um homem crucificado". Esse pensamento descansou-me. Tudo aquilo era provavelmente um ritual de iniciação que desconhecia, talvez para fazer de mim uma pessoa melhor, quem sabe um mártir, ou mesmo um salvador, através do espancamento. Sorri de felicidade e pratiquei meditação.
Finalmente, quando o padre terminou a sua função, desmaiei. A última coisa que vi foram as beatas a correr atrás do padre lançando-lhe palavras laudatórias, cada uma competindo para entrar primeiro que as outras na porta do templo católico.
Acordei aqui, onde tenho sido muito bem tratado. Perguntei qual era a extensão do meu martírio, mas ninguém me respondeu ainda. Parece, segundo sussurrou uma enfermeira, que neste sítio as informações são mais valiosas do que ouro, e que por isso tenho primeiro que esperar no meio do corredor até que passe o médico. Assim que ele vier deverei então esboçar uma expressão desgraçada para que ele, por piedade, me mostre o resultado de alguns exames e me relate mais ou menos o diagnóstico, num tempo máximo de dois minutos. É o que toda a gente faz. Segundo percebi, é assim em toda a parte e desde há muito tempo, ou seja, é um costume. E os costumes definem a cultura de um povo, são a sua identidade, todos os respeitam e se esforçam por preservá-los. Por isso, apesar de ainda não ter conseguido chegar a uma conclusão sobre a opinião dos modernistas, estou muito feliz por me encontrar no meio de um povo com tanta identidade.
Thursday, August 24, 2006
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