Não esqueçais as marinhas creaturas

Tuesday, August 08, 2006

"Primeiro eles ignoram-te, depois riem de ti, depois lutam contigo e por fim tu vences."

Fui eu que disse esta verdade, mas o último passo está longe.

Hoje voltei ao Rossio. O meu pensamento era claro e positivo. Cair é fácil, qualquer homem consegue cair. Mas erguer - isso exige a virtude dos melhores. Iria conquistar aliados e empreender uma revolução, nem que para isso tivesse de cair mil vezes.

Deparei-me desta vez com um homem que tinha tantas posses como eu, ou seja, quase nenhumas. Talvez até tivesse menos, porque eu tenho este computador, esta casa hipotecada e o meu dhoti. Era novo, estava no máximo na casa dos sessenta, cheirava pior que o comboio para Bombaim, não tinha pernas e pedia esmola a quem passava.

Atravessei-me à sua frente, empurrei o cartão com as esmolas para o lado e apresentei-me:
- Bom dia, meu bom homem. O meu nome é Ghandi, Jaime Ghandi, e sei o que tu buscas.
Os seus olhos fixaram-me, confusos, mas pouco depois a sua mão estendeu-se na minha direcção com a palma virada para cima.
- Ajude o pobrezinho doente e com fome! Ajude o pobrezinho doente e com fome! Nem que seja a moeda mais pequena feliz natal! Nem que seja a moeda mais pequena feliz natal!

Ali estava, reflecti para as minhas nódoas, um homem humilde e lutador, um homem com coração. O futuro do país. Pois que é um país senão o coração do seu povo? É verdade, estávamos no verão, longe do natal, mas o natal é uma farsa. O verdadeiro natal era o que aquele homem desejava, apenas a essência do homem, sem bens ou males supérfluos, um amor tão grande que transbordava como as fontes do Rossio, suficiente para inundar toda a nação.

A única coisa que tinha para dar, além da minha luz e da minha benção, eram algumas folhas de alface do jantar de ontem, muito saborosas. Depois de alguma busca encontrei-as intactas, mas quando tirava a mão das cuecas (eu guardo sempre a refeição nas cuecas, quando saio por muitas horas, porque o dhoti não tem bolsos), uma senhora chegou-se ao mendigo e esmolou-lhe cinquenta cêntimos.

Ele não gostou e arremessou um olhar furioso para a mulher.
- Não tem um ou dois euros? É só um ou dois euros, feliz natal. Ajude o pobrezinho doente e com fome.
Ela sorriu. Queria mesmo ajudá-lo.
- Se quiser vou ali à pastelaria e trago-lhe uma sandes e um galão, quer?
O mendigo começou a balançar no chão, ainda mais furioso.
- Não obrigado! Dois ou três euros, feliz natal! Não me diga que não tem três ou quatro euros? É natal! Faz diferença uma nota de cinco para o pobrezinho?
A mulher reflectiu alguns segundos. Não queria sair derrotada e fez-lhe uma oferta final.
- Pago-lhe uma refeição num restaurante à sua escolha, com bebida, sopa, sobremesa, tudo o que quiser.
- Mas que diferença lhe faz oito euros? - disse ele levantando a voz - Ajude o pobrezinho doente e com fome, sua cabra! - ordenou aos berros.

A situação ficou num impasse. Eu estava junto deles e podia fazer alguma coisa, mas depois do estalo que levei no outro dia não achei prudente ofertar a minha alface e voltei a pô-la onde estava. A mulher olhou para mim, esboçou um sorriso piedoso e deu-me os cinquenta cêntimos. Agradeci e guardei a moeda junto da alface, não por valer dinheiro, mas por valer compaixão. Estou em casa, agora, a olhar para ela. Algo brilha numa das faces: é o brilho da esperança.

Não, peço desculpa. É outra coisa.

1 comment:

Brisa said...

Alface com cheirinho... Deve ser bom, deve!