Não esqueçais as marinhas creaturas

Sunday, July 23, 2006

Por vezes tenho recordações parvas da minha vida anterior. Hoje acordei com vontade de comer nachos.

Sem pensar, dirigi-me ao hipermercado, peguei em três pacotes de nachos e fui para a caixa. Quando chegou a hora de pagar não tinha dinheiro... Não valia a pena chafurdar no dhoti, Ghandi não usa dinheiro.

A fila prolongava-se e a senhora da caixa parecia impaciente. Mas não me apetecia deixar ali os nachos...
"Sou Ghandi" - disse-lhe, certo de que a convenceria - "se me deixar levar estes nachos sem pagar permito-lhe que me siga e se junte ao swaraj, o movimento pela libertação da Índia".
Ficou a olhar para mim, depois suspirou. Tentei outra abordagem, desta vez segredando-lhe ao ouvido para ninguém perceber:
"Sou da casta vaishya, uma casta abastada e influente. Seria uma desonra para este estabelecimento não me conceder estes pacotes de nachos, segundo o protocolo da hospitalidade".
A mulher não deve ter gostado do meu hálito a caril e pegou no telefone para chamar o segurança. Fiquei com uns escassos segundos para usar o último e derradeiro trunfo.
"Estou prestes a receber o Nobel da Paz. Sabe quanto é isso? O Nobel. Muitos pacotes de nachos."

Nessa altura senti dois gigantes agarrarem nos meus braços esqueléticos e arrastarem-me para longe dos nachos. Irritei-me profundamente, tão profundamente que quase pensei obscenidades. Mas Ghandi não pensa obscenidades. Ghandi faz greve de fome. Enquanto me arrastavam, ameacei-os com um jejum de duas semanas. Fui posto na rua.

2 comments:

Brisa said...

Bem feita! É para não seres parvo! Queres ter dinheiro para o vício? Vai trabalhar!

Jaime Mohandas Karamchand Pacheco Ghandi said...

Tendes razão. O meu trabalho é o brahmacharya, que consiste em reduzir o meu ser a zero. É um trabalho gratificante, desde que não o consiga concluir.