A minha demanda por um discípulo começou infrutífera.
Encontrei, sentando no vão do Cine Paraíso, um adolescente sorridente atrás de um enorme acordeão. Parecia muito enérgico mas abandonado - bom para asceta, como eu. Podia ser, porque não, pensei, o meu primeiro discípulo, ajudante na escrita da Verdade, aprendiz dedicado dos Vedas, alguém que até soubesse fazer uma boa cama de pregos. Para mim tal arte é inacessível, pois não posso pegar em armas e tanto martelos como pregos podem ser letais.
Inclinei-me cheio de bondade e perguntei-lhe o nome. A resposta revelou um rapaz pouco educado - um vaso vazio para eu encher, um bom sinal.
- Saúl, ó monhé! - gritou ele - Não me conheces?
- Não, meu bom rapaz. És conhecido?
- Ai! Vê lá se queres um borrifo destes! - e estendeu o dedo do meio na minha direcção, rindo à gargalhada.
Não tinha assistido a tanta rebeldia nem nas memórias recém-adquiridas sobre a independência indiana. Precisaria de muito tempo para domar um adolescente assim. Como não ganhava de forma nenhuma a sua simpatia, resolvi fazer-lhe uma proposta concreta e aliciante:
- Rapaz, o meu nome é Ghandi. Sou um grande líder espiritual, e posso transformar-te facilmente num líder ainda maior do que eu em trinta ou quarenta anos. Tudo o que tens a fazer é vir comigo e viver despojado de todos os bens, estudar e ler alto os Vedas oito horas por dia, rever as minhas obras, ter por princípio a verdade e o vegetarianismo, fabricar e manter duas camas de pregos, fazer voto de celibato e uns jejuns de vez em quando para purificar o corpo e o espírito. Que dizes?
Notei que o rapaz continuava a olhar para mim com o mesmo ar trocista, mas que estava a pensar. Coçava uma narina com o mesmo dedo que me estendera antes. Quando terminou apanhou um maço de cigarros caído num degrau, escreveu-lhe qualquer coisa, suspirou e deu-mo, revelando a existência de comunicação. Fiquei animado, até esperançoso. As minhas lentes brilharam de alegria só de imaginar um discípulo a sério. A minha mensagem fundamental para a humanidade teria continuação. O meu exemplo seria transmitido por várias gerações para bem da paz e da verdade.
Foi então que reparei no que estava escrito. Tenho aqui o maço, ainda, como recordação :
Encontrei, sentando no vão do Cine Paraíso, um adolescente sorridente atrás de um enorme acordeão. Parecia muito enérgico mas abandonado - bom para asceta, como eu. Podia ser, porque não, pensei, o meu primeiro discípulo, ajudante na escrita da Verdade, aprendiz dedicado dos Vedas, alguém que até soubesse fazer uma boa cama de pregos. Para mim tal arte é inacessível, pois não posso pegar em armas e tanto martelos como pregos podem ser letais.
Inclinei-me cheio de bondade e perguntei-lhe o nome. A resposta revelou um rapaz pouco educado - um vaso vazio para eu encher, um bom sinal.
- Saúl, ó monhé! - gritou ele - Não me conheces?
- Não, meu bom rapaz. És conhecido?
- Ai! Vê lá se queres um borrifo destes! - e estendeu o dedo do meio na minha direcção, rindo à gargalhada.
Não tinha assistido a tanta rebeldia nem nas memórias recém-adquiridas sobre a independência indiana. Precisaria de muito tempo para domar um adolescente assim. Como não ganhava de forma nenhuma a sua simpatia, resolvi fazer-lhe uma proposta concreta e aliciante:
- Rapaz, o meu nome é Ghandi. Sou um grande líder espiritual, e posso transformar-te facilmente num líder ainda maior do que eu em trinta ou quarenta anos. Tudo o que tens a fazer é vir comigo e viver despojado de todos os bens, estudar e ler alto os Vedas oito horas por dia, rever as minhas obras, ter por princípio a verdade e o vegetarianismo, fabricar e manter duas camas de pregos, fazer voto de celibato e uns jejuns de vez em quando para purificar o corpo e o espírito. Que dizes?
Notei que o rapaz continuava a olhar para mim com o mesmo ar trocista, mas que estava a pensar. Coçava uma narina com o mesmo dedo que me estendera antes. Quando terminou apanhou um maço de cigarros caído num degrau, escreveu-lhe qualquer coisa, suspirou e deu-mo, revelando a existência de comunicação. Fiquei animado, até esperançoso. As minhas lentes brilharam de alegria só de imaginar um discípulo a sério. A minha mensagem fundamental para a humanidade teria continuação. O meu exemplo seria transmitido por várias gerações para bem da paz e da verdade.
Foi então que reparei no que estava escrito. Tenho aqui o maço, ainda, como recordação :
«Com um bafo desses não há cá Ghandi para ninguém! Um bafo desses quer alho! Se tivesse um chavo mandava-te jogar com as bolas do bilhar; como não tenho, toma um autógrafo destes e vai jogar com as tuas! Pequeno Saúl»
Mesmo o mais optimista dos homens tem de reconhecer a derrota, se for sensato. Fui-me embora, não suficientemente depressa para deixar de o ouvir lamentar, para o seu acordeão, "há cada filósofo desses...". Pobre anacoreta sem educação nem vontade de a ter, pobre viciado no trocadilho incivil, aquele rapaz. Que desperdício de aptidão! E pobre de mim, que continuo a dormir sobre trapos, desconfortável e desconforme aos meus princípios.

3 comments:
É preciso ter um estofo desses para aturar um bafo desses a um filósofo desses e ainda dar um autógrafo desses a um tipo rijo como um perro!
Querido Gandhi-enfeitiçado:
Sugiro que vás à BN encontrar discípulos que se juntem a ti, ás tuas crenças e ao teu estilo de vida. Todas as manhã eu estou lá (mas não posso ser tua discípula, pois tenho a sensação que já reencarnei vezes a mais...) e há um tipo atrás de mim que limpa a garganta. Há outro que se agarra às calças e corre para o WC. Ali, as pessoas ou cheiram a mofo ou cheiram a bedum. Se não, podes ir ao Bairro Alto, só que aí está tudo bêbado e ninguém te deve levar a sério.
BOa sorte na tua demanda!
Muito obrigado pelos valorosos comentários. A minha missão está mais forte que nunca, o meu caminho é um sulco na terra arado para semear a Verdade.
"Primeiro eles ignoram-te, depois riem de ti, depois lutam contigo e por fim tu vences."
Fui eu que disse isto.
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