Quanto mais ando pelas ruas, mais me convenço que é necessária uma revolução pacífica. As pessoas vivem tão tristes e zangadas que parece que não vivem. Ao princípio, pensei que se atropelassem por haver uma corrida ao ouro, tão grande era a azáfama e tão carregados eram os semblantes. Ou então que o governo as obrigasse a correr e a competir como animais de sol a sol, como escravos. Mas não há ouro nem escravatura.
As pessoas correm e competem porque outras pessoas antes delas também corriam, e outras antes dessas, e outras ainda antes. Correm e competem, não por ambição ou obrigação, mas por imitação. Porque não sabem fazer outra coisa. Porque as suas mentes não são preparadas para fazer juízos, apenas para copiar juízos previamente elaborados por outros. É a era do "pré-cozinhado". Não fazem ideia do que conseguiriam se fossem meus discípulos. Em vez de usarem 10% do cérebro para a corrida sem meta e a competição violenta, aprenderiam a usar 90% para a plenitude imóvel e o auto-sacrifício pacífico.
E é isso que pretendo fazer. Desloquei-me ontem ao Rossio com esse intuito a semear todo o pomar da minha mente. Dirigi-me à entrada do Metro, um dos pontos mais nervosos da cidade. As pessoas corriam e atropelavam-se em modos tão selvagens que faziam os macacos da Índia parecerem educados membros da realeza. Decididamente tinha muito que labutar, e achei que a melhor estratégia seria primeiro reunir aliados.
A melhor hipótese era, de longe, um aparente conterrâneo que se vestia mais ou menos como eu e queimava muitas espécies de incenso nas escadas da estação. Muitas pessoas afastavam-se por causa do cheiro, e com razão: a selecção de incensos era pouco profissional. Enquanto uma mistura correcta pode elevar a alma ao mundo astral, uma errada pode fechá-la num contentor de peixe podre, ovos estragados e bufas de couve. Disse-lhe isso exactamente nestes termos, para lhe despertar o instinto universal da entreajuda. Respondeu:
- É vinte euros o conjunto.
Sorri. Não queria desistir depressa. Talvez a acção vencesse as palavras, pensei, e mostrei-lhe como se fazia: apagando o incenso de couve e o de cebola, acendendo o de caril e o de pimento, compus um "bouquet" perfeito que já não repelia as pessoas. Ele olhava para mim espantado enquanto eu trabalhava, aparentemente indeciso entre seguir o meu exemplo ou implorar-me para lhe ceder toda a minha sabedoria. Em vez disso levantou-se e deu-me um estalo nos óculos. Dado o meu frágil corpo, foi como se um tornado me levantasse do chão: desequilibrei-me e rebolei vários degraus, sem deixar de sorrir, até embater em dois ou três transeuntes. Agradeci-lhes e eles insultaram a minha mãe.
Monday, August 07, 2006
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2 comments:
Caro amigo metamorfoseado:
Tenho de te dizer que te compreendo perfeitamente. No metro ou no comboio pessoas cheias de pressa chocam comigo. Não te aconselho muito a ir para esses locais em hora de ponta, é mortífero. E sempre que te dirijas a alguém começa por lhe dizer que não vais impingir qualquer coisa, como a tv cabo, o sapo, o clix, a Ami, uma esmola para surdos-mudos falsos, etc. É desses abutres todos que as pessoas fogem. De resto, não sei porque correm, mas acho que é instinto suicida. talvez morram mais depressa.
Obrigado pelo aviso. Evitarei esses formigueiros tanto quanto a minha demanda permitir. São formigueiros, locais de escuridão interior. As formigas só chocam umas com as outras porque não sabem ver.
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