Achei numa dobra do meu dhoti, ontem, um voucher para usar na piscina do Hotel Inglaterra, no Estoril. Perto de sítios ricos há sempre pobres, e eu precisava de pobres para difundir a minha mensagem. Além disso o nome do hotel parecia-me apropriado para começar uma swaraj.
Como não podia conduzir descalço fui de comboio. As pessoas olhavam para mim e faziam comentários sobre o lençol que tinha enrolado. "Não é um lençol", expliquei-lhes pacientemente, "é um dhoti". Algumas fugiam. Senti uma humilhação dos pés aos óculos. Ser Ghandi não era a maravilha que muitos anunciavam. Em vez de me sentir prestes a receber o Nobel da Paz, sentia-me prestes a ser ostracizado por mendicidade ou foleirice.
Consegui fugir ao revisor andando de carruagem em carruagem, até sair no Estoril. Quando apresentei o voucher na recepção do hotel apressei-me a informar que não o tinha roubado. Roubar era contra os meus princípios. Eu nem devia precisar de voucher, porque era um líder espiritual. "Satya, entendem?". E se recusassem a minha entrada fazia greve de fome, ou pior, comia-lhes as plantas que tinham à entrada.
- Concerteza. Tem calção de banho? - perguntaram amavelmente.
- Não, - respondi - só esta fralda enrolada no cu.
Não me deixaram frequentar a piscina e expulsaram-me, como a todos os outros pobres que não encontrei. É horrível ser Ghandi, principalmente com este sol. O calor afasta os pobres, e sem pobres nem o Bhagavad Gita me vai valer. Começo mal.
Saturday, July 22, 2006
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3 comments:
Deves ter um lindo fedor, deves... Nem com esse estúpido ar beato te safas!
É verdade. Lavo regularmente o meu dhoti, mas nem sempre tenho água disponível, porque ma cortaram. Guardei alguma na banheira, que uso para lavar o corpo, a roupa e os dentes, mas já a uso há vários dias.
Possuo tendência para o suor. Ando muito ao sol, os poros da minha pele são sensíveis e vomitam. Tenho estalactites de suor nos sovacos, que escorrem pelas pústulas do abdómen arrastando algumas essências de pus, que se voltam a colar à pele mais tarde quando o sol as seca. Isto acaba por não resultar muito bem em termos odoríferos, para não falar do chulé e dos efeitos gástricos de prolongados jejuns.
Às vezes, quando sinto o meu cheiro mais distraidamente, penso se terei morrido sem dar conta. Mas isso faz parte do meu trabalho de auto-controlo.
Chego a desejar, como fazem muitos dos meus compatriotas, ser vendedor de rosas. Pelo menos disfarçava o cheiro. Mas não posso cair nessa tentação, porque sou Ghandi. Ghandi tem tanto auto-controlo que suporta o seu odor. Ghandi cheira orgulhosamente mal.
Acho que vou vomitar...
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