Não esqueçais as marinhas creaturas

Saturday, July 22, 2006

Achei numa dobra do meu dhoti, ontem, um voucher para usar na piscina do Hotel Inglaterra, no Estoril. Perto de sítios ricos há sempre pobres, e eu precisava de pobres para difundir a minha mensagem. Além disso o nome do hotel parecia-me apropriado para começar uma swaraj.

Como não podia conduzir descalço fui de comboio. As pessoas olhavam para mim e faziam comentários sobre o lençol que tinha enrolado. "Não é um lençol", expliquei-lhes pacientemente, "é um dhoti". Algumas fugiam. Senti uma humilhação dos pés aos óculos. Ser Ghandi não era a maravilha que muitos anunciavam. Em vez de me sentir prestes a receber o Nobel da Paz, sentia-me prestes a ser ostracizado por mendicidade ou foleirice.

Consegui fugir ao revisor andando de carruagem em carruagem, até sair no Estoril. Quando apresentei o voucher na recepção do hotel apressei-me a informar que não o tinha roubado. Roubar era contra os meus princípios. Eu nem devia precisar de voucher, porque era um líder espiritual. "Satya, entendem?". E se recusassem a minha entrada fazia greve de fome, ou pior, comia-lhes as plantas que tinham à entrada.
- Concerteza. Tem calção de banho? - perguntaram amavelmente.
- Não, - respondi - só esta fralda enrolada no cu.

Não me deixaram frequentar a piscina e expulsaram-me, como a todos os outros pobres que não encontrei. É horrível ser Ghandi, principalmente com este sol. O calor afasta os pobres, e sem pobres nem o Bhagavad Gita me vai valer. Começo mal.

3 comments:

Brisa said...

Deves ter um lindo fedor, deves... Nem com esse estúpido ar beato te safas!

Jaime Mohandas Karamchand Pacheco Ghandi said...

É verdade. Lavo regularmente o meu dhoti, mas nem sempre tenho água disponível, porque ma cortaram. Guardei alguma na banheira, que uso para lavar o corpo, a roupa e os dentes, mas já a uso há vários dias.

Possuo tendência para o suor. Ando muito ao sol, os poros da minha pele são sensíveis e vomitam. Tenho estalactites de suor nos sovacos, que escorrem pelas pústulas do abdómen arrastando algumas essências de pus, que se voltam a colar à pele mais tarde quando o sol as seca. Isto acaba por não resultar muito bem em termos odoríferos, para não falar do chulé e dos efeitos gástricos de prolongados jejuns.

Às vezes, quando sinto o meu cheiro mais distraidamente, penso se terei morrido sem dar conta. Mas isso faz parte do meu trabalho de auto-controlo.

Chego a desejar, como fazem muitos dos meus compatriotas, ser vendedor de rosas. Pelo menos disfarçava o cheiro. Mas não posso cair nessa tentação, porque sou Ghandi. Ghandi tem tanto auto-controlo que suporta o seu odor. Ghandi cheira orgulhosamente mal.

Brisa said...

Acho que vou vomitar...